Francisco Alves Filho: As religiões e a sujeira

Seguidores das religiões afro foram maltratados mais uma vez, como acontece há séculos

Por O Dia

Rio - Os seguidores das religiões afro foram maltratados mais uma vez, como acontece há séculos. O último vexame deu-se na porta do Cemitério de Ricardo de Albuquerque, há poucos dias. Ali, em episódio noticiado pelo DIA, adeptos do candomblé foram impedidos de homenagear os parentes, como mandam os preceitos de sua fé. O motivo da restrição, segundo funcionários daquele e de outros cemitérios: a sujeira deixada pelos praticantes.

Uma curiosa argumentação. Não se sabe de reclamação semelhante sobre os restos de velas, santinhos e outros itens deixados pelos católicos sobre os túmulos em suas rezas. As pipocas, comidas e bebidas usadas pelos adeptos do candomblé e da umbanda certamente exigem mais dos encarregados da limpeza. Os cristãos, no entanto, também dão importante participação nessa carga diária de trabalho.

Não é difícil entender por que essa distinção acontece. É o velho preconceito dando as caras para tratar como algo inferior religiões que são tão legítimas quanto quaisquer outras. Não bastasse o lugar de destaque ocupado por católicos e evangélicos na sociedade brasileira por rituais que expõem suas riquezas, até mesmo quando produzem detritos são privilegiados.

Discutir esse conceito de sujeira talvez seja útil para arejar o debate acerca das religiões. É limpo segregar o culto de milhões de brasileiros, rotulá-lo de ritos demoníacos e condenar seus seguidores ao ostracismo? Não é algo sujo incitar contra os praticantes dos cultos afro a discriminação que os inibe de andar nas ruas com seus trajes e símbolos?

Há também, ao lado do simples preconceito, a ignorância que diminui o valor de tudo que não seja oriundo de sua própria cultura. Assim, o transe de um filho de santo em um terreiro é visto como manifestação de crendice primitiva, enquanto o fiel que se acredita curado por um milagre é tratado como prova da força divina. Mesmo que nenhum dos dois tenha o aval da ciência, como costuma acontecer com qualquer religião.

É recomendável a adaptação de um antigo ditado segundo o qual religião é como nariz: cada um tem o seu. No mundo civilizado, já poderíamos esperar que cada um cuidasse de seu próprio nariz, e não ficasse tentando farejar a sujeira do outro.

?Francisco Alves Filho é jornalista do DIA