Roberto Pimentel: A onda preta da vergonha

Enquanto a verdade não submerge, a ‘onda preta’ que também dizima espécies na Baía abre caminho para especulações que não livram nem a Petrobras

Por O Dia

Rio - As cenas aterradoras de um tsunami de água preta que varreu parte do Rio Tietê, em São Paulo, na semana passada e, dois dias depois, como consequência, matou mais de 40 toneladas de peixes no mesmo rio impressionaram o país. Revelaram também, como uma fratura exposta, o descaso com que nossos rios, lagos e mananciais são tratados pelo poder público. A onda gigante e preta de São Paulo mostrou que não há limites para a capacidade destruidora do meio ambiente pelo homem.

Pois a catástrofe não se deu somente pelas fortes chuvas após longo período de seca. Hoje sabe-se que toda a sujeira e os dejetos químicos que empesteavam o leito do reservatório de uma empresa, a Emae, vieram à tona com o aguaceiro e se espalharam como uma praga por 70 quilômetros do Tietê na cidade de Salto, interior paulista.

Responsável pela limpeza do reservatório, a empresa agora está sendo investigada por suposta negligência. Mas será que com nossas leis frouxas haverá punição aos responsáveis pela hecatombe ambiental?

E como ficarão as comunidades de pescadores artesanais do entorno que tiram o seu sustento do rio? Respondo aos caríssimos leitores: de mãos abanando. Assim como a concessionária que, ao apagar dos holofotes da mídia com o caso caindo no esquecimento, escapará incólume.

A desídia das autoridades com os recursos naturais atinge também nossos mares. No Rio, prossegue o mistério sobre a morte de peixes na Baía de Guanabara, colocando sob suspeita a qualidade de suas águas que receberão daqui a pouco mais de um ano os esportes aquáticos das Olimpíadas. Espécies (não só de savelhas) continuam a aparecer mortas nas praias, e até agora nenhum órgão se dignou a chegar às causas.

Enquanto a verdade não submerge, a ‘onda preta’ que também dizima espécies na Baía abre caminho para especulações que não livram nem a Petrobras. A estatal estaria sendo acusada por pescadores de poluir as águas com seus navios petroleiros e seus dutos submersos que transportam óleo.

Era só o que faltava.

Roberto Pimentel é jornalista do DIA