Amadeu Garrido: O generoso Uruguai

Não cabe a nenhum país, nem mesmo ao bom Uruguai, socorrer a democracia americana

Por O Dia

Rio - Abriram-se as portas da República Oriental do Uruguai a um palestino, quatro sírios e um tunisiano que amargavam no cárcere mais infame do mundo — Guantánamo —, desde 2002, o julgamento a que todo ser humano faz jus. Prisão nefanda que Barack Obama não conseguiu cerrar ante a oposição republicana e o sentimento de vindicta do povo americano.

Não se põe em dúvida o sentido humanitário da medida de Mujica. No entanto, é preciso parar e pensar sobre as últimas decisões do governo uruguaio. O país, líder em qualidade de vida e desenvolvimento humano da América Latina e que injeta a maioria de seus recursos militares nas atividades de paz da ONU, não pode sofrer as consequências de exageros impensados.

Não se pode introduzir no mesmo embornal a descriminilização do aborto, a legalização da maconha, o matrimônio igualitário, a adoção de crianças por casais homoafetivos e a recepção dos prisioneiros de Guantánamo. São questões díspares. O maior problema dos pensamentos ideológicos é projetar sob o emblema do progressismo propostas que só aparentemente devem ser tratadas com igualdade.

Guantánamo é o maior câncer a corroer a democracia americana, que se empobreceu e ficou desprovida de valores fundamentais depois do inominável ataque às Torres. A propensão à mais extrema vingança foi um equívoco, em que pese o sofrimento nacional. A conduta do país se equiparou, em muitos pontos, à dos radicais que o atacaram. Dois exemplos são a desbussolada invasão do Iraque e o erguimento do depósito humano de Guantánamo, campo de concentração rotulado de presídio.

Porém, “quem pariu Mateus que o embale”. Não cabe a nenhum país, nem mesmo ao bom Uruguai, socorrer a democracia americana. Isso porque, ao asilar os prisioneiros, o Uruguai faz bem a eles, mas muito mais a seus ofensores, que os capturaram no Paquistão, meteram-lhes os grilhões mais sórdidos e não os julgaram. Se o método se espraiar, Guantánamo será esvaziada, assim como a consciência americana, e os demais países terão de conviver com inocentes ou culpados, gente da paz ou terroristas, e suas consequências. E um dos maiores problemas dos EUA estará resolvido, mediante a exportação de vítimas de Estado.

Amadeu Garrido é advogado

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