Milton Cunha: Bastidores da loucura

Eu desolado querendo ser José Mayer, e as miúdas sapateando na minha alma de Paulo Betti

Por O Dia

Rio - As coisas da vida real, que não estão na pauta da reportagem, são dignas de serem relatadas aqui. Até porque fazem parte da teoria da Carnavalização (Baktim), as premissas sobre o incontrolável da praça pública; o corpo grotesco; a inversão da hierarquia: na suspensão dos três dias de Momo tudo pode, o mundo fica de cabeça para baixo.

Na escadaria de cimento na porta da Mangueira, eu esperava para entrevistar o carnavalesco sobre o enredo Mulheres de Mangueira. Bateram na batata da minha perna por trás, e disseram: “Tio... tio...”. Era uma minúscula menina, lindinha e descalça, acompanhada por suas amiguinhas, todas espevitadíssimas: “Oi amor, o que você quer falar com o Tio Milton, amada?”. “É que o senhor parece o viado da novela”. “Garota, sua cretinazinha, sai já daqui, me respeita, maravilhosa, tenho idade de ser teu avô... Eu pareço com a Claudete hétero, é isso?”. “Não, Téo Pereira, Téo Pereira...” E saíram elas dançando, pulando e cantando o nome da maldita da novela das nove; eu desolado querendo ser José Mayer, e as miúdas sapateando na minha alma de Paulo Betti, provando que as mulheres de Mangueira são mesmo o máximo, dignas de se fazer enredo, porque aos 4 anos elas já sabem de tudo da vida.

No enredo sobre a Beleza, União da Ilha, a intenção era mostrar fisiculturistas deslumbrantes na Praia da Bica. Fomos para a areia, mais era tanto o fedor e tamanha a quantidade de urubus sobre nossas cabeças, que fomos à pracinha em frente, gravar sobre a grama. Luzes, câmera, ação: eu, microfone em punho, halterofilistas com barras, bíceps, tríceps. Nisto, uma voz de mulher grita do alto: “Milton Cunha, eu te amo...” No automático, acenei em direção a voz e bradei: “Obriga...” Não consegui concluir, pois realizei o conjunto da cena: num motel de cinco andares, numa janela de suíte sexual defronte para o mar, uma jovem senhora de seus 50 e poucos anos, em pose de namoradeira, braços cruzados sobre o parapeito, subia e descia em harmoniosa intermitência, sobre algo ou alguém que estava logo atrás e abaixo. Toda a equipe, constrangida, técnicos e atletas, baixaram a cabeça num “putz... ela está transando...” Mas eu, que estava sobre um banco de praça, segurei a estupefação, pois em Momo tudo é possível. Ela me deu tchauzinho, subindo e descendo paulatinamente, sorrindo um sorriso feliz de matar o seu desejo: rebolar sobre um órgão, enquanto olhava a vida lá em baixo, eu incluído, em plumas e câmeras. O senhor apareceu atrás dela, emergindo, fechou a janela de vidro transparente com aquelas nervuras, e eu fique lá, observando o rosto da tarada, esmigalhado contra o vidro, no sobe e desce do prazer. Há testemunhas!

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