Por bferreira
Rio - É difícil ser feliz no Natal? A resposta mais fácil, ou a primeira que vem à cabeça, é não. Claro que não. É facílimo. No Natal, todos são tomados pelo espírito natalino, os parentes superam os problemas, as seguidas festas de confraternização tornam a vida uma grande brincadeira.
É festa hoje, amanhã e depois. A gente dá um jeito com as contas, bota no cartão, pago para você, deixa comigo. Ressaca é tranquilo: basta tomar mais uma que passa. O medo é suplantado. Ninguém vai arrombar a porta, a bagunça será toda arrumada, a saúde estará restabelecida. Vão se abrir e iremos entender. Nos livraremos da prisão dos segredos.
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Isso me lembrou quando meus pais fizeram encontro de casais na igreja. Na festa de encerramento, oferecida em casa pela família a cada casal, papai e mamãe, apaixonados, tomando seus uísques, ele vira: “Como estará o clima na casa de fulana e beltrano?”. Mamãe preocupada: “Não deve estar dos melhores. Triste!”. As visitas curiosas ouvem: “Eles e mais três casais se separaram no encontro”.
Explicaram que o padre e os coordenadores do evento mandaram maridos e mulheres se confessarem uns para os outros, falarem o que haviam escondido até então, tudo o que pensavam um do outro, a fim de saírem dali com os corações limpos. Foi um quebra-pau. “Mas vocês estão tão bem!”, comentamos. Papai, sem fantasiar: “Claro! Eu e sua mãe não participamos disso”. Diante das filhas em dúvida, mamãe explicou: “Conversamos com frequência! Além do que, a pessoa tem que ter sua privacidade!”. Ficou explicado.
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Entendemos a questão da intimidade de cada um. Mas também ficou outra lição, a da parte do “conversar frequentemente”. Quando a gente não deixa as coisas acumularem, a vida fica mais leve. Comparando, é como se tivéssemos uma lista de dez pendências, e estivéssemos sempre deixando para resolvê-las depois. Na hora de escrever num papel tudo o que temos para fazer, essa lista já dobrou de tamanho. E resolver tudo é meta cada vez mais inatingível. Fora aqueles problemas da lista que são default: “Este ano, vou mudar minha atitude”; “vou abrir uma poupança”; “é sério, vou fazer uma dieta braba desta vez”... É uma ladainha. Todo ano, escuto as velhas promessas dos meus amigos e agora me pego tentando saber qual é a promessa que sempre me faço. Sabe que não sei? Mas provavelmente isso não é exclusividade dos outros.
É difícil ser feliz no Natal? Com acúmulos, sim. É um tal de desabafo depois dos vinhos da ceia e promessas não cumpridas para o Réveillon, que não sei não. Estou certa de que o próximo ano pode ser melhor se a gente nunca deixar para amanhã o que pode fazer hoje. E se tem uma coisa pra falar, não perca tempo. Fale agora.
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