Sandra Bozza: Maturidade e letramento

Desde o momento em que o ensino de nove anos foi implantado no Brasil, há divergência sobre a ideia de se alfabetizar aos 6 anos

Por O Dia

Rio - Desde o momento em que o ensino de nove anos foi implantado no Brasil, há divergência sobre a ideia de se alfabetizar aos 6 anos. Isso se deve ao fato de vigorarem concepções de desenvolvimento embasadas em fases do ser humano. A primeira alegação é que as crianças são imaturas e só querem brincar. A segunda é que se está roubando a infância e colocando crianças pequenas em situações estressantes de aprendizagem — o que não é uma inverdade: há casos de treino que levam momentos de lazer, em que se poderia brincar.

Hoje, porém, a Psicologia do Desenvolvimento Humano já faculta entendermos o desenvolvimento do ser de outra maneira. Se, nas perspectivas que até então vigoraram, temos entendimento de um ser que primeiro se desenvolve para depois poder aprender, sob o prisma sociocultural para se desenvolver é necessário aprender.

Isso implica conceber que a inteligência e o desenvolvimento das competências e habilidades que utilizamos não nascem conosco, mas nos são dados graças à inserção num grupo social. Em outras palavras: tudo o que somos devemos às nossas relações com os grupos com que convivemos.

Assim, quanto mais cedo a criança for inserida num grupo leitor, que signifique para ela o poder e a magia da leitura e da escrita, dificilmente se sentirá sobrecarregada. E isso pode ser divertido se a escola e a família tiverem claro o pressuposto de que se aprende lendo, escrevendo e pensando sobre a escrita, mesmo que isso seja realizado através de ações no cotidiano.

Dessa forma, sem passar por exercícios mecânicos, as crianças podem se inserir no universo leitor através de um educador que seja seu porta-voz e consiga demonstrar através da produção coletiva, que a escrita é a porta para um mundo sem limites e que, mesmo sem saber escrever, pode-se iniciar o processo de alfabetização e letramento.

Quando crianças pedem para adultos escreverem por ela ou imitam o ato da escrita, com rabiscos ou algo que imite letras, elas já se apropriaram de um dos maiores tesouros da humanidade: o conceito de que a escrita vai mais longe, tem o poder de atingir o outro e, sobretudo, é uma forma eficaz de se passar por este mundo!

Sandra Bozza é professora, linguista e socióloga

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