Moacyr Luz: O fim do ano

O sofá afundou onde sento, inventando forças pra me erguer na gangorra dos graus etílicos

Por O Dia

Rio - Não é necessária a interferência do espírito da Zora Yonara para prever a ressaca de um Natal entrando pela ‘sexta-feira-Tiradentes’, enforcada, com o último fim de semana do ano. Não procuro indicadores ou culpados, mas minhas ações também despencaram. O sofá afundou onde sento, inventando forças pra me erguer na gangorra dos graus etílicos.

No dedo, a ponta das falanges, de pele fina dos 30 anos de acordes no violão, anda dolorida de tanto deslizar no celular recebendo vídeos no WhatsApp. Quando soa a décima imagem recebida, bateria no mínimo, você se percebe irritado e bloqueia até a própria mãe entre seus favoritos. O carteiro dorme na seção. Todas as mensagens já seguiram no céu de frequências moduladas, bandas de um correio digital.

Pros que exageram no ponche, a contrapartida das frutas ameniza o arrependimento. Rabanadas e pernil regados no vinho tinto também fazem a diferença na Lei Seca do dia seguinte. Eu, defumado feito um tender, busco palavras pra esta crônica embaixo do panetone, a glicose fundamental pros chuviscos na vista, quando você já delira com os bichos na parede.

Nem tudo são nozes inquebráveis. Teu amigo oculto acertou o teu tamanho de camisa. Um milagre! Os devotos vaporizam o fato a um ano de bonanças, amores bem-sucedidos, saúde pra dar e vender.
Em tempo. Saúde pra vender. Meu plano de saúde é comparável, em custos, a um consórcio de carro zero. Uma Mercedes conversível, um oposto qualquer com vidro fumê.

Férias inventadas, o botequim está cheio. A etiqueta foi esquecida na fivela da bermuda, barriga encostada no balcão encardido, o primeiro copo desce num só gole. Um gaiato propõe um churrasco na calçada, inteira com o salpicão que a sogra fez pra ceia, pega o álcool e acende o carvão pra esperar o fim do ano.

Na minha infância eu tinha certeza de que uma estrela de cauda reluzente riscaria a última noite de dezembro, anunciando um janeiro de esperanças. Cometas cuspindo fogo feito as abóbadas de um Réveillon em Copacabana. Pra mim, eles seriam naturais, mistérios do mundo. Nem mesmo a maturidade, quando descobri que o Papai Noel era um primo do meu pai, me fez esquecer a fantasia desses dias.

Soube que o calendário é uma conclusão de astrônomos antigos, chineses ou romanos, calendas, calendários julianos, mas o coração insiste na fábula pessoal, avistar um rasgo no céu anunciando um novo tempo.

E-mail: moaluz@ig.com.br

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