Jaguar: Leblon, o luxo e o lixo

É chato estar bebendo chope e ver madame recolher o cocô do lulu num plástico

Por O Dia

Rio - Aqui onde moro é o mais valorizado metro quadrado do Brasil. Mas quando o pai de Célia comprou na planta o apartamento na Selva de Pedra, parte do bairro ainda era um vasto areal. Dizem que em 1969 o governador Carlos Lacerda mandou tacar fogo na Favela da Praia do Pinto para construir o condomínio com o nome de uma novela de sucesso na TV. Já morei em tudo que é lugar no Rio, mas aqui tenho a vida que pedi a Deus. Ele me atendeu, mesmo sabendo que sou ateu. Tem tudo em torno da quadra onde moramos: banca de jornal, carrocinha de pipoca e tapioca, restaurante chique e pé-sujo, farmácia, supermercado, cinema, teatro, banco, livraria, correio e o escambau. E da mesa no Clipper, no fim da tarde, se vê o mais deslumbrante desfile de mulher bonita do planeta. Mas ninguém é perfeito, como disse o Boca Larga no filme de Billy Wilder.

É chato estar bebendo um chope no Alemão e ver madame recolher o cocô do lulu num plástico e botar na bolsa. Pior ainda é quando não recolhe. Elas falam com os bichinhos: “Vamos pra casa, tá na hora da novela.” Às quintas, nem pensar em convidar alguém. Todo o lixo do condomínio é amontoado em frente ao nosso prédio. Para entrar em casa passamos entre montanhas de fedor. Mendigos e cachorros rasgam os sacos de plástico e disputam os restos. Em geral, a Comlurb recolhe aquela porcariada toda depois da meia-noite, acordando todo mundo.

E agora — essa foi de lascar — perdemos João Ubaldo. Morava perto, na General Urquiza. A risada solar nunca mais, ficou o legado do seu livro inacabado ‘Noites Lebloninas’, recentemente lançado, sobre o bairro. Nasceu numa ilha — Itaparica — e morreu em outra, o Leblon. Não é preciso nascer aqui para ser leblonino (palavra inventada por Ubaldo para o título do livro). Alguns exemplos: o gaúcho João Saldanha, o mineiro Ruy Castro, o paulista Chico Caruso, o espanhol Narciso, do Jobi. Não vou falar do livro porque o prefácio de Geraldinho Carneiro, grande amigo do escritor, diz tudo. Vou lhe passar a palavra: “Ubaldo construiu seu narrador.

Ele é porteiro de um edifício da alta classe média, nascido na Bahia, mas morador do Leblon há muitos anos, como o próprio Ubaldo.” A dupla identidade garante a verossimilhança de sua fala aqui, “no Rio de Janeiro, que é minha segunda pátria e hoje posso dizer que sou um carioca e quem me vê assim me toma por carioca, isto aqui é minha casa, não saio daqui nem deportado.”

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