Francisco Alves Filho: Feliz 2015, Rafael

A condenação de Rafael foi peculiar. Juiz da 32ª Vara Criminal aceitou como prova de crime o material apreendido com ele pela PM, especialmente uma garrafa plástica de Pinho Sol

Por O Dia

Rio - A poucos dias da chegada de 2015, pego a contramão e proponho uma volta no tempo. Mais precisamente um ano e meio atrás, para retornar à efervescência das manifestações de junho de 2013. Naquele momento, diante das câmeras de toda a imprensa, jovens participaram de protestos violentos. Muitos arremessaram coquetéis molotov contra policiais, carros de polícia e prédios públicos. Foi assim em muitas cidades brasileiras.

Por conta disso, centenas de manifestantes foram presos. Quase todos acabaram liberados, apenas alguns poucos continuam detidos. E, em todo o país, entre tantos levados à prisão, somente um foi condenado pela Justiça. Em meio à multidão de manifestantes oriundos da classe média, muitos deles universitários, o escolhido para receber punição pesada de cinco anos de prisão foi o morador de rua Rafael Braga Vieira, um rapaz negro, de 27 anos. Ele já tinha sido preso outras duas vezes por roubo.

A condenação de Rafael, como se sabe, foi peculiar. O juiz da 32ª Vara Criminal aceitou como prova de crime o material apreendido com ele pela PM, especialmente uma garrafa plástica de Pinho Sol. Mesmo a reconhecida impossibilidade de usar embalagem plástica para se fabricar um molotov não bastou para demover o magistrado de condená-lo.

Rafael, então, foi parar numa cela. No início do ano, recebeu autorização para trabalhar em um escritório de advocacia. O batente foi interrompido quando uma foto sua, à frente de uma pichação política, rendeu-lhe 10 dias de solitária.

Em 10 de dezembro, outro problema. Rafael saiu do escritório do advogado e não voltou para a cadeia. Apresentou-se no dia seguinte. Alegou que sua mãe estava doente e foi cuidar dela. Não adiantou: receberia mais 10 dias de solitária. Desesperado, tentou fugir. Foi recapturado, transferido de presídio. Passará o Réveillon amargando a pena de isolamento, desta vez por 30 dias.

Este ano que termina e o anterior, como se vê, foram péssimos para Rafael, um morador de rua paupérrimo, sem qualquer conhecimento de política. O jovem parece ser exemplo perfeito do quão seletiva é nossa sociedade ao aplicar suas condenações. Que, ao menos em 2015, Rafael tenha um ano melhor e nossa Justiça seja, enfim, mais justa.

?Francisco Alves Filho é jornalista do DIA

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