Moacyr Luz: Desvaneios de Carnaval

Assim é o Carnaval, um divã a céu aberto. Um armário desmedido com todos saindo ao mesmo tempo

Por O Dia

Rio - Tive sim, um amigo, na época, íntimo, que não tolerava barulho e álcool, ainda mais quando juntos e misturados. Avesso à riso frouxo, conversa fora e outras edículas, sofria uma alteração quase física, lobisomem em lua cheia, nos dias do entrudo. Amanhecia de purpurina e batom, esfomeado no macarrão do Cordão da Bola Preta, seguindo cambaleante até o extinto Tangará, o bar que inventou a batida de gengibre, seu fraco mesmo na folia de energéticos. Bebendo seguidas doses, cantava aos berros o refrão da agremiação: “Quem não chora, não mama...”

Assim é o Carnaval, um divã a céu aberto. Um armário desmedido com todos saindo ao mesmo tempo, alas, passistas e destaques, os donos da passarela. Em cada bairro um Bloco das Piranhas com seios de laranjas, grávidas de travesseiros pontudos, ‘rouges’ no esfolado e torto salto alto, todos de bóbis nos cabelos. Os confetes vão entupindo o ralo do banheiro, veias nas cores diversas, forjadas na ducha necessária. O jornal traz dicas úteis à constante ressaca que não respeita nem as cinzas da quarta­-feira.

Chás milagrosos, frutas exóticas, sementes dos andes peruanos, e, raizes que vão pro beleléu ao primeiro apito do diretor de bateria. Apertados no metrô estação Praça Onze, rumos distintos Balança ou Correios, vêm elmos de verdes­periquitos, chocalhos nas canelas, a espada rasgando a bainha em frente ao camarote dos jurados. A modelo desnuda no ‘carvalhão’, afina o quadril com a respiração ofegante. Posa pras fotos, pede um futuro melhor e entra na Avenida. Lá embaixo, os ‘trucks’ de subúrbio vendem salsichão e mocotó, temperados na mesma panela das barracas do antigo Terreirão.

Saudade dos casos vividos por Rubem dos Santos. O chão dá a volta por cima na poeira do tempo. O antigo amigo íntimo chora com o Cacique de Ramos batendo tamanco na Avenida Rio Branco. Não disputam acesso. Acho que a pureza dos agogôs não permite perda de pontos. No arrastão do samba, olha a rapaziada do Bafo da Onça. Cacos de um Catumbi boêmio, passado atropelado por um viaduto e túnel engarrafados. Delírios do outro século . Ansioso, apresento meu samba­enredo feito em parceria com os queridos Teresa Cristina e Claudio Russo, pra Renascer de Jacarepaguá, a sexta escola da Série A cruzando a Sapucaí num sábado de tantas alegorias. A timidez me faz erguer os braços pra esconder o descompasso das pernas, sandálias brancas da humildade. O coração, esse ficou no setor 1.

Lembranças do antigo amigo: Carnaval é uma divindade e hoje eu sou seu cavalo.

E-mail: moaluz@ig.com.br

Últimas de _legado_Opinião