Fernando Molica: A solução está na Terra, não no Céu

Buscar as possíveis motivações de um crime não significa justificá-lo nem absolvê-lo

Por O Dia

Rio - Atribuir a uma religião a culpa por atos bárbaros cometidos por alguns de seus adeptos seria o mesmo que responsabilizar clubes de futebol pelos crimes praticados por torcidas organizadas (vale lembrar que muitos massacres já ocorreram em nome de Jesus). Nesses casos, a religião — assim como a paixão por um time — é mais uma justificativa, algo que unifica, canaliza e expressa uma raiva difusa, o “nós” contra “eles”.

O maior problema não é o radicalismo de correntes religiosas. O discurso da intolerância cairia no vazio caso não encontrasse eco na vida de tantas pessoas, gente seduzida pela pregação da violência. Vingar Maomé foi apenas o pretexto dos terroristas que atacaram o ‘Charlie Hebdo’. Mais do que movidos pela fé, eles pegaram carona num ódio bem conhecido.

A França defensora das liberdades é a mesma que ocupou duas dezenas de territórios africanos, entre eles, países de população árabe. A independência das colônias só viria a ser conquistada entre os anos 1950 e 1970, há pouquíssimo tempo. Não é fácil apagar da memória coletiva a opressão do colonizador, a tortura e o racismo. A exclusão social e o preconceito são renovados a cada dia nas periferias de cidades europeias. O eterno adiamento da criação do Estado Palestino e a pobreza dos que vivem nos territórios tutelados por Israel também servem de combustível para os que pregam o terror.

Buscar as possíveis motivações de um crime não significa justificá-lo nem absolvê-lo. O massacre de Paris é imperdoável, inadmissível, não deve ser relativizado ou atenuado. Nenhum grupo pode impor seus preceitos ao resto da sociedade. Não é razoável que muçulmanos ameacem ou matem ateus ou adeptos de outras religiões que façam imagens de Maomé; hindus têm o direito de não comer carne de vaca, mas não o de explodir churrascarias. Quem se sentiu ofendido pelo humor do ‘Charlie’ deveria ter organizado manifestações públicas, poderia ter recorrido à Justiça, não aos fuzis.

Trazer Deus para o centro da discussão só interessa aos extremistas, aqueles que buscam inviabilizar qualquer solução. Afinal, é impossível argumentar e negociar com o Todo Poderoso. É preciso, portanto, tirar a conversa do Céu e trazê-la para a Terra. Foram seres humanos, e não os deuses, que cometeram atos criminosos, que provocaram injustiças, que estimularam o ódio, que assassinaram os cartunistas. O fundamental é partir para ações concretas, gerar esperança, garantir conquistas como a liberdade de expressão e impedir que mais pessoas sejam conquistadas pelo ódio.

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