Por felipe.martins, felipe.martins
Rio - Os boletins do Exame Nacional do Ensino Médio, divulgados terça-feira, poderiam inspirar o governo a fazer jus ao objetivo original do Enem: fotografar a qualidade da aprendizagem para corrigir as deficiências. No certame passado, como agora se sabe, o desempenho em Redação e Matemática foi pífio — nas demais disciplinas, houve discreta melhora. Ter direcionado o Enem para ser o principal acesso a dezenas de universidades é fabuloso, mas é obrigação do governo detectar fraquezas, ainda mais em tempos de “Brasil, pátria educadora”.
Há que se ressalvar a recomendação do MEC por uma avaliação mais rígida das redações. Diante dos absurdos dos anos anteriores, em que textos com receitas e letras de hinos recebiam notas altas, não se esperava outra medida. Eis o resultado: apenas 250 candidatos em todo o Brasil tiveram nota máxima (1.000 pontos), mais da metade ficou abaixo de 500 pontos, e meio milhão levou zero — ou quase 10% do contingente. É alarmante.
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Os milhões de textos evidenciam uma geração alienada, descompromissada com a boa escrita — será o estereótipo da ‘juventude do pau de selfie e das redes sociais’? A escola não pode fazer milagres, como passar por osmose o gosto pela leitura e a vontade de redigir bem. Mas o exército de zerados escancara, sim, falhas no ensino, como a falta de debates para estimular a argumentação.
O diagnóstico está aí, como tem estado há quase duas décadas. O Enem tem como mérito buscar a interdisciplinaridade e a produção de conhecimento, mas o Ensino Médio ainda é essencialmente calcado no ‘cuspe e giz’. Excelente hora, portanto, para discutir mudanças na grade curricular e formas de estimular os alunos a pensar — que é o verdadeiro sentido de ser da escola.
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