Moacyr Luz: Niterói

Igual ao São Pedro, impossível. Comprar o pescado e poder por na panela o escolhido, é delírio para os gourmets

Por O Dia

Rio -  Do meu começo em Niterói, São Francisco ainda tinha saco, e, da cidade, o melhor era a vista pro Rio de Janeiro. Depois, Araribóia, o índio guerreiro. Fofocas de toda ordem, desde a sua sexualidade à deselegância de estar de costas pras tabas do seu domínio, perderam força depois que ele atravessou a nado e tão rápido quanto uma Gávea II os limites da enseada. Pra seguir de carro, só as balsas.

Existem opções exóticas como a estrada pra Magé, asfalto semelhante a um achocolatado mal dissolvido na primeira hora do dia, mas a travessia pela Baía de Guanabara era mais consciente. Icaraí, a água sagrada, o oposto da marina de Botafogo, tornou­se o paraíso da alta classe, janelas abertas pro poente, mar de calmaria pros versos de Marcio Proença, Dalto e Silverinha. As praias, rebatizadas de oceânicas, foram notadas por outros guaranis, assim como os negros do Cubango, e daí, novos palácios deram rimas pra essa história. Itacoatiara, Jurujuba e Itaipu, aldeia aonde moram os pargos do meu cardápio.

Novos amigos, novos encontros. Abençoado, meu médico Marco Antônio, rubro-negro, ensina a vida aos jovens do Antonio Pedro. Também sou salvo pelas mãos de Cris, arrumando o meu braço que aponta pro Teatro Popular, no Caminho Niemeyer. Neste recente ambiente cultural, toco um samba com o genial Carlinhos Sete Cordas sempre nas primeiras quintas do mês. Por conta dessas coincidências, pensei na crônica da semana.

Já zanzei por alguns mercados nessa vida, mas igual ao São Pedro, impossível. Comprar o pescado nos boxes no térreo e poder, subindo um andar, temperar e por na panela o escolhido, é delírio pra qualquer gourmet. Sento no Bar do Wagner, goleiro que ajudou o Botafogo na conquista de um título contra o Santos de outro porto, e a conversa lambuza os dedos na travessa da sardinha. Perco a compostura. Adiante, o charme da Gruta de Santo Antônio, leia-se dona Henriqueta, excelência em bacalhau. Ouvi dizer que o craque Ricardo Amaral classificou o prato como o melhor do planeta.

Fecho esse pretenso guia homenageando um homem simples, ares de Mujica, olhar de maturidade, andar de todos os caminhos, Seu Mario do Caneco Gelado do Mario. Balcão disputado pela boemia papagoiaba, bolinhos e pastéis de saciar a fome dos nômades da Glória, tudo ali é sincero. Amigos de plantão, Jiló, Foly e Vilela sentam no ar do salão. Seu Mario é vidente na pescaria, adivinha os nossos pedidos pela saliva de cada um, lulas e camarões direto dos puças de Gragoatá. Cidade que nos olha pela vidraça do Museu, joia rara da arquitetura contemporânea, Niterói de Sergio Chiavazzoli, Arthur Maia, Mingo e Marmita, e do meu taxista Nonno, bandeira 2 na volta à realidade carioca.

E-mail: moaluz@ig.com.br

Últimas de _legado_Opinião