Por felipe.martins

Rio - Depois que aqueles imbecis de turbante mataram a bala os cartunistas do ‘Charlie Hebdo’, nossa profissão ganhou um prestígio inesperado. Agora, nas minhas andanças pelo Leblon, todos me chamam de cartunista, até a caixa do supermercado. Em todo o planeta somos tratados com respeito. Estamos nas alturas. Da altura — literalmente — das Torres Gêmeas. Os terroristas microcéfalos mataram e morreram sem saber que o humor é indestrutível. Parece gabolice, mas não é: para cada cartunista que matarem, outros virão, sempre. Mas garanto que, dos mais de três milhões que marcharam para protestar contra o atentado, pouquíssimos eram leitores do ‘Charlie Hebdo’. Franceses são muito conservadores, só uma minoria não ficaria escandalizada com as safadezas e os palavrões do semanário. A tiragem máxima alcançada foi de cem mil exemplares. Para o Brasil é muito, mas na Europa é um número insignificante.

Os cartunistas Wolinski%2C Charb%2C Cabu e Tignous — e mais oito que estavam na redação — ficaram imortalizados pela morte que tiveramReprodução

Depois do atentado, foi lançada uma edição de incríveis 3,5 milhões. Nunca foi basicamente um jornal político. Estava mais para o escracho e a escatologia, sacaneava Deus e o Diabo, centro, esquerda e direita com a mesma virulência. Sobrava até para o Papa. Como seu equivalente brasileiro, o ‘Casseta e Planeta’. Prova disso é que Siné parou de colaborar no ‘Charlie Hebdo’ porque o achava, acredite, pouco politizado. O que é verdade, se comparado com os ferozes ‘L’Énragé’ e ‘Siné-Massacre’ (nos quais Wolinski participou). Siné teve que fugir às pressas para o Brasil para não ser preso em 1968, durante a Chienlit.

Siné e Wolinski eram velhos amigos. Siné, agressivo, Wolinski, cordial. Gostava de uma birita, um bom papo e jazz e era um trabalhador incansável, de uma criatividade espantosa. Tinha 80 anos, dois a menos que Ziraldo e eu. Parecia mais um próspero aposentado do que um perigoso anarquista do traço. Quando um jornalista perguntou se não tinha medo de afrontar tanta gente poderosa armado apenas com uma caneta, disse que sim, mas tinha que fazer o seu trabalho. Querem saber? Os cartunistas Wolinski, Charb, Cabu e Tignous — e mais oito que estavam na redação — ficaram imortalizados pela morte que tiveram. Foi um final de vida glorioso e, para mim, até invejável: acho isso melhor do que morrer babando numa cama de hospital, com falência múltipla dos órgãos.


Um detalhe inédito e macabro me chamou a atenção: inimigos tradicionais, policiais repressores e humoristas contestadores morreram juntos no atentado, vítimas dos mesmos carrascos.

Você pode gostar