Por felipe.martins

Rio - Tentar impedir arrastões nas praias da Zona Sul barrando ônibus da Zona Norte — como sugerido esta semana — é incorrer na falácia de culpar o todo pela parte, fazendo coro ao perigoso discurso da intolerância com o diferente e com o alheio. Reação semelhante têm alguns europeus diante do terrorismo: a partir desse pensamento equivocado, cresce a islamofobia, por se considerarem todos os muçulmanos homens-bomba ou assassinos em potencial. Seria, dentro dessa ótica torta, a ‘solução’ mais ‘fácil’ para os problemas, tanto em Ipanema quanto em Paris.

Evidentemente, a proposta de segregar é um completo absurdo, um retrocesso. Tomemos o caso da orla carioca. Existe demanda gigantesca por praia — que aumenta neste verão inclemente —, e as balneáveis e acessíveis por transporte público são poucas, a despeito dos milhões gastos na ‘despoluição’ da Baía de Guanabara, que poderia oferecer alternativa a Ipanemas e Copacabanas de praxe. Acrescente-se à equação a pouca oferta de áreas de lazer além-túnel. Quinta da Boa Vista e Parque Madureira — em expansão — são notáveis exceções.

A questão, portanto, é de gestão de deslocamento e de controle de baderna, que começa na areia e termina na volta para casa — e, domingo passado, gerou problemas num bairro que nada tem a ver com praia, o Cosme Velho. Conter arrastões, quase sempre iniciado por menores, é um desafio que esbarra na legislação: a menos que alguém morra nos tumultos, dificilmente uma pessoa fica presa por ter armado a confusão ou furtado algo. O policiamento ostensivo, tão eficaz no Réveillon, é a medida mais acertada para evitar roubos na areia.

Partir a cidade, como pregam alguns, no entanto, não resolverá. Ao contrário, só acirrará os ânimos, pois o abismo social — de renda, formação, oportunidades, opções de lazer, a lista é extensa — é o germe de toda a violência.

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