Por felipe.martins

Rio - Assim que fechei o ciclo das Escolas de Samba no Brasil, o que ocorreu em 2010 (agora as faço internacionalmente, e para este ano além de Argentina, Londres e Lausanne, a novidade é Montreux), comecei a preparar o livro de meus 20 anos de carreira, que batizei de ‘Carnaval é cultura, poética e técnica no fazer escola de samba’, que está pronto pela Editora Senac São Paulo, e que lançarei numa louca feijoada dia 6 de fevereiro, na Cidade do Samba, com show das sete escolas por onde passei.

Vem de longe minha crença no desfile como a melhor vitrine para o povo carioca contar seus valores para o Brasil e o mundo. Claro que o patrocínio resolve a questão da necessidade financeira e embola a questão da relevância cultural da história que as manifestações vão contar, mas de qualquer forma, a cada ano, sempre se salvam três ou quatro enredos que justificam a grandeza da narrativa importante que pesa sobre a nota do quesito.Em minha carreira, primeiro eu dei sorte de ter encontrado o querido patrono da Beija-Flor, Anisio Abraão David (a quem dedico o livro), que entusiasmado permitiu grandes enredos. Além de bancar João Trinta, ele apostou em mim, o que confortavelmente o coloca na condição de visionário lançador de malucos.

Depois, Ilha e o presidente Peixinho, quando ganhei meu primeiro estandarte de Ouro pelo inesquecível Fatumbi Verger, e Barbosa Lima Sobrinho, quando conheci o diretor de TV Fernando Barbosa, que me levou para a TV Educativa. Dali, pulei para Leda Nagle, virei colunista do DIA, fui com o Canazio para a Radio Tupi (hoje Globo), comecei a transmitir o Carnaval do Povão do Jorge Perlingeiro, a Band e o festival Folclórico de Parintins, a TV Record e, por fim, mas não o fim, aquilo que considero o começo, Boninho e Miguel Ataíde me conduziram para a TV Globo, objeto de meu desejo juvenil, agora confessado, de descer de pau de arara desde Belém do Pará para um dia chegar a trabalhar na Rede Globo, defronte das câmeras. Foi o que me deu coragem de cutucar as costas do Miguel no meio da Sapucaí durante um ensaio técnico em 2014 e dizer: “Pode me dar uma chance?” Ele responde: “Mas você tem tempo, Milton?” Eu disse: “Estou há 30 anos esperando para ter tempo… E deu no que deu, Saravá!”

Até aqui, tive absoluto apoio da Liga Independente das Escolas de Samba, e assim pretendo continuar, fazendo jus ao investimento deles. E o livro é um dos tributos que presto a essa grande organização da qual sou filho e produto. Confesso que, ao quebrar os paradigmas, com meu jeito espalhafatoso de gay assumido, provoquei medo e desconfiança. Mas o tempo e o público foram primordiais para que os condutores entendessem que autenticidade era valor inegociável e, errando e acertando, chegamos aqui.

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