Artur Custódio: Hanseníase e preconceito

Desafio para superar a doença mais antiga da humanidade — registrada na Bíblia — vai além do cuidado biomédico

Por O Dia

Rio - A cada ano, 30 mil brasileiros são diagnosticados com hanseníase — o que faz do Brasil o país com o maior número de novos casos. Somos, também, o segundo país com mais pessoas vivendo com a doença, em números brutos, atrás apenas da Índia. Este cenário, além de alarmante, é absurdo: a hanseníase tem cura. O tratamento está disponível de graça no SUS e, 48 horas após o início da terapia, via oral, a transmissão é interrompida. Então, se podemos barrar a micobactéria da hanseníase, por que não podemos erradicá-la?

O desafio para superar a doença mais antiga da humanidade — registrada na Bíblia — vai além do cuidado biomédico, já muito bem descrito pela ciência. A superação do estigma e a garantia dos direitos humanos dos portadores são os compromissos mais contundentes que governos, organizações globais, fundações e cidadãos podem assumir.

Neste Dia Mundial e Nacional de Combate à Hanseníase, é preciso lembrar e respeitar a história dos milhares de brasileiros brutalmente separados da família em colônias muralhadas. Em consequência do preconceito e da ignorância, milhares de bebês saudáveis foram entregues compulsoriamente à adoção e submetidos a toda sorte de abusos e humilhações. Um episódio de terror da História do Brasil, que jamais deve ser esquecido. Por isso, a importância desta data que, apesar do reconhecimento mundial e da oficialização legal no Brasil, permanece negligenciada pelas autoridades.

O momento, no entanto, também nos convoca a reconhecer nossa incansável luta por diretos e a valorizar importantes conquistas. Seguindo a experiência japonesa, o Brasil foi o segundo país a indenizar as pessoas isoladas nas colônias — e pode ser o primeiro a indenizar os filhos entregues compulsoriamente à adoção. Agora, cabe ao governo federal a aprovação de medida provisória para que o país enfim dê mais este passo no processo de reparação de danos das pessoas que foram segregadas de suas famílias. Um compromisso ético e, acima de tudo, humano.

?Artur Custódio é coordenador nacional do Morhan

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