Henrique Garcia Sobreira: O exame dos zeros

O resultado ‘decepcionante’ ou ‘assustador’ tem pouco a ver com as escolas. É mais efeito da transformação do Enem em um grande ‘vestibular unificado’

Por O Dia

Rio - Há grande preocupação a respeito dos 529 mil zeros em Redação no Enem. Os comentários vão do susto até quase uma histeria em relação à qualidade do ensino. Eu, sinceramente, acho até que o número de zeros foi pequeno, mas por motivos diferentes.

Recapitulemos coisas esquecidas que ‘produziram’ as notas e que não estão ligadas à ‘qualidade da educação’. Cerca de 6,1 milhão de participantes disputavam umas 250 mil vagas em instituições públicas e outras tantas em instituições particulares, via bolsas no Prouni/Fies. Era um exame realizado com interesse utilitário, pragmático.

Após a primeira etapa, estimo que cerca de três milhões de candidatos perceberam que as suas chances eram pequenas. No segundo dia, ao fim da parte objetiva, é razoável supor que mais dois milhões tiveram a mesma impressão.

Quem trabalha com aluno identifica dois fenômenos. Primeiro, o da ‘autorreprovação preventiva’ (o estudante se evade por volta de agosto para se rematricular em março), que o levará a entregar a redação em branco ou fazê-la sem esforço. Segundo, o cara que resolve se esforçar para além dos limites com a esperança de recuperar os pontos que perdeu na etapa objetiva que dão origem às famosas piadas pós-Enem.

Levando-se em consideração esses dois fatores, a quantidade de redações zeradas não foi nada de grave. Grave mesmo é o fato de só 250 terem tirado 1000 e só 35 mil se colocarem entre 901 e 999 pontos. Mas também aí não há nada relacionado com a qualidade da Educação. É efeito da necessidade de contratar 6 mil corretores (cada um pega duas mil redações, recebendo R$ 6 mil por isso), todos imbuídos da importância da “discriminação justa”. Não há chave de correção ou treinamento capazes de homogeneizar as notas. Com impactos subjetivos variados, é bem provável que quase todas redações que receberam de 750 para cima e entre 200 e 500 apresentem diferença de 100 pontos se submetidas a uma terceira correção.

O resultado ‘decepcionante’ ou ‘assustador’ tem pouco a ver com as escolas. É mais efeito da transformação do Enem em um grande ‘vestibular unificado’. O Enem é o problema e, enquanto ele continuar sendo dessa forma, não emergirá dele qualquer solução.

Henrique Garcia Sobreira é professor da Uerj

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