Por felipe.martins, felipe.martins
Rio - Regada, a festa pelo aniversário do grande Marquinhos Sathan corria em grande euforia. Bacalhau, guacamole de camarão e até um feijão carregado, tempero no ponto, fechavam o cardápio da confraternização. As pimentas frescas, de todas as cores e tamanhos, salivaram a boca do Carlinhos Sete Cordas, olhos abertos na cachaça mineira, desarrolhada. Antes, uma recomendação:

— Marquinhos, deixa que eu me sirvo, senão, agoura!
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Cismas antigas, as superstições mantêm seus crachás em nossas vidas. Ainda desviro o chinelo pra mãe não morrer e dou três pulinhos a São Longuinho pra que me ajude quando perco as chaves. Outro santo, São Roque, me protege dos cães agitados nas vielas do nosso destino.
Também colo na cabeça um pequeno papel contra o frequente soluço. Seria um privilégio dos mais humildes apostar nessas crendices? Vassoura atrás da porta, semente de romã, espelho coberto em noites de raio?
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Nascia um verruga no dedo de quem apontava uma estrela, e a vizinha só se acalmava depois de um copo d'água com açúcar. Brincar com a retina te deixava caolho, Deus me livre. Só mesmo batendo três vezes na madeira. Meu mestre João Nogueira só entrava no palco batendo forte com o pé direito pra espantar o mal-olhado. Eu recorro aos préstimos de um galho de arruda. Pra garantir, ainda cruzo o indicador sob o dedo médio ou enfio o polegar entre eles.
Às vezes, inventamos nossas próprias cordas pra nos amarrar. Conheço pessoas que repetem cuecas, meias, lenços usados, na certeza de que tais ‘amuletos’ ajudam na conquista. Lembrei. Eu ‘futucava’ com a língua uma espinha adolescente abaixo do lábio da boca quando o Zico marcou o primeiro gol da partida. Moral, fiquei feito um Einstein de subúrbio, até o apito final.
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O aquariano Sathan faz uma oração de agradecimento à fartura da mesa. Carlinhos derrama um gole pro santo. Marcio Beco do Rato benze a medalha de São Jorge enquanto Dermeval aperta um dente de alho no bolso da calça, todos unidos pela esperança. Na despedida, Gladys, a primeira dama da casa, tons de rosa no vestido, leveza na alma, faz questão de abrir a porta:
— É pra vocês voltarem!
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Costumes que permanecem no meu cotidiano, quase uma bússola e o seu norte. Cismas antigas,as superstições se mantêm em nossas vidas. Ainda desviro o chinelo pra mãe não morrer

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