Jaguar: Carnaval em Janeiro

Em vez de samba, tambores, clarins e músicas dolentes

Por O Dia

Rio - Chegamos ao Uruguai no Dia de Carnaval, 22 de janeiro. Informação do motorista ao passarmos pela Praça do Velódromo Municipal, por volta do meio-dia. “Carnaval? Onde?” Não havia indícios do que chamamos de Tríduo Momesco. “Hoje, das cinco às oito.” Como constatamos pela televisão do hotel: um grupo de senhores e senhoras de fino trato, exibindo riquíssimas fantasias, com maquiagens — verdadeiras obras de arte — que mais lembram Veneza que o Sambódromo. Em vez de samba, tambores, clarins e músicas dolentes. Na verdade não fomos a Montevidéu, ficamos no 20º andar de um hotel de uma cadeia internacional.

Lá de cima, a vista lembra a Praia do Leblon, só que o Rio da Prata é cinzento. Há, no lobby, passagem para imenso shopping onde tem tudo; lojas de lembranças turísticas e de grife, churrascaria — que lá é parrilla — pescados (tipirones, imbatíveis minilulas) e restaurantes de massas, comida oriental, as famosas empanadas e o dulce de leche, doce de doer, orgulho nacional. Por falar em lulas, o presidente Pepe Mujica, 79, ex-tupamaro, lembra Lula, ex-líder sindical. Escolheu sua Dilma, o Tabaré, para substituí-lo até voltar ao poder.

As semelhanças ficam por aí: é um homem pobre, como a maioria dos uruguaios. Vai para o trabalho de bicicleta ou dirigindo um velho Fusquinha. Vive com o equivalente a R$ 2.700 e 90% do salário doa para ONGs de pessoas carentes. E, como Lula, gosta de birita e de discutir futebol com os amigos. ‘El País’ é o principal jornal uruguaio. O Brasil, para eles, é um gigante desconhecido. Só li duas menções sobre o patropi: a queda de valor dos fundos de investimento na Bolsa de São Paulo (15 linhas na quarta página) e o empate de zero a zero com a Celeste no torneio sub-20. Vi o jogo pela tevê. Manchete de ‘El País’: “Juego brutito.” A seleção sub canarinho ficou hospedada no nosso hotel. Todos com uniformes impecáveis, o majestoso ônibus da CBF estacionado na porta, boas-pintas — uns ‘kakazinhos’ (sem acento) . Tremenda decepção: uns piernas de palo. Se ainda tinha esperanças de que os garotos reabilitassem o nosso futebol, desisti de vez.

Mas a viagem valeu. Os uruguaios são cultos e politizados. É barato — dos dois sentidos — e tem o melhor bar que conheci, o Café Brasileiro. Lugar de respeito, fundado em 1877, com as mesas de madeira polidas por incontáveis cotovelos, as paredes cobertas por fotos de ilustres frequentadores, de Gardel a Neruda e até Pelé e Maradona, providencialmente em datas diferentes, e o mais assíduo frequentador, o escritor Eduardo Galeano (continua sábado que vem).


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