Fernando Scarpa: Quem tem medo de Bethânia?

Ela parece uma entidade que desperdiçou a chance de se reconciliar com a canção depois de 50 anos

Por O Dia

Rio - Comemorar 50 anos é sempre uma ocasião especial. Meio século de existência ou de carreira demanda festa, revisão da vida, lembrança dos bons momentos. A cantora Maria Bethânia, que comemora cinco décadas de trajetória, preparou um show assim, nesse clima. Mas, pelo que assisti, tudo indica que a festa é mais para si mesma, e não para todos os fãs.

Era enorme a expectativa da plateia, há duas semanas, antes de começar o espetáculo ‘Abraçar e agradecer’, no Vivo Rio. E ela subiu ao palco com o público delirando — essa reação que provoca é um clássico. Com certeza, muitos esperavam uma grande visita a todas as fases da vida dela e da nossa. Mas o que li nos jornais sobre o show comemorativo não confere com o que vi.

Logo no início, Bethânia esqueceu uma letra. A canção não lhe era familiar. Não importa. Com humildade, reconheceu o esquecimento, a banda não parou, e ela seguiu em frente sob aplausos. Já no segundo ato, Bethânia resolveu enveredar por série de canções regionais — excelentes, porém desconhecidas da maioria de nós, fãs dos grandes clássicos que ela eternizou.

A verdade é que o palco produzido servia somente a quem estava na parte superior da casa. Da plateia, não era possível ver o que se passava debaixo dos pés dela no palco de LED, que diziam ser fantástico. Pensei que a sensação de frustração era só minha. Resolvi olhar em torno, e alguns rostos denunciavam a mesma expectativa frustrada com a ausência de canções emblemáticas. A sensação é que ela cantou algumas imbatíveis, poucas em relação ao número de canções que nos emocionou ao longo dos anos.

Quando a banda soltou os acordes de ‘Carcará’, que a lançou como diva, não entendi o significado da sua atitude: colocou o microfone no chão, mãos na cintura, encarou o público e saiu. Fugiu? Renegou o passado, depois de 50 anos? Acredito que muitos fãs adorariam, como eu, ouvir o “pega, mata e come” na voz dela, em vez de canções regionais que mais agradam ao seu atual gosto pessoal do que, sinceramente, à expectativa de alguns.

Mas quem tem coragem de dizer à diva que não gostou? Ela pega, mata e come? Acredito que não! Mesmo não cantando ‘Carcará’ e outras tantas canções, o que foi uma pena, o show encanta. Mas ela parece uma entidade que desperdiçou a chance de se reconciliar com a canção depois de 50 anos.

Fernando Scarpa é psicanalista

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