Por felipe.martins

Rio - No livro ‘Cartas a um jovem engenheiro’, para orientar futuros profissionais, dediquei um capítulo à Ética na Engenharia. Na minha passagem pela Presidência da Cedae, saltou-me aos olhos como a Ética tangencia as práticas de engenheiros que deveriam zelar pelo bom nome da profissão, em especial perante a mídia.Muitos devem se lembrar do caso do rompimento de adutora em que profissionais, em nome de entidades representativas, buscaram de maneira açodada e irresponsável pôr a culpa na empresa, o que depois foi comprovado ser de responsabilidade de terceiros — uma empresa de refrigerantes e sua empreiteira — sem que houvesse o devido pedido de desculpas. O mesmo aconteceu na explosão de bueiros no Rio, quando ‘especialistas’ e até dirigentes de empresas, realmente responsáveis, culparam o “gás do esgoto” pelas explosões.

Nesta estiagem, profissionais da engenharia tentam distorcer dados, inclusive de perdas e de investimentos necessários, para buscar lançar a débito do governo do estado e da Cedae a questão da crise, que de fato ainda não chegou, até pelo trabalho feito. Enxerga-se aí uma esquizofrenia técnica, pois alguns destes engenheiros foram, por quase uma década, gestores dos recursos hídricos pelo próprio estado e muitas vezes responsáveis por emitir outorgas para uso industrial, controle do desmatamento de margens e pelo combate a captações clandestinas, estes, sim, teoricamente agravadores da crise.

Quando críticas partem de leigos ou de políticos que receberam tal missão, pode até se entender, pois muitas vezes são em busca de holofotes — apesar de soar como ato bisonho para os que conhecem o tema, como jornalistas especializados. Quando, porém, tais críticas partem daqueles que conhecem o setor e até que administraram empresas, agências e órgãos — e, portanto, as políticas —, isto só pode soar como ato de má-fé. Ou ação travestida de interesse inconfessável para beneficiar um setor, para lançar nuvem de fumaça para as suas omissões no passado, e que muitos na política chamam de manobra diversionista, ou até de ação político-partidária, mas que perante a Engenharia é um ato lamentável e que extrapola a ética da profissão.

Wagner Victer é engenheiro, foi presidente da Cedae

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