Por felipe.martins

Rio - Quase um verso de Dorival Caymmi: “Quem não gosta do Bloco das Piranhas, bom sujeito não é”. Além de ruim da cabeça, corre o risco de um processo por homofobia ou algo que o valha. Morei por um curto período da minha infância no extinto bairro do Catumbi. Daquelas vias,nasceu o Bafo da Onça. Devo ter visto o Oswaldo Nunes cantando “é o bom, é o bom, é o bom” fazendo a festa na Rua do Chichorro. Ouço histórias de violentas rivalidades entre as “agremiações”, mas tenho dúvidas sobre o peso desses bofetes. Quase um ímã grudado na memória, a marchinha em onomatopeias, repetindo “plac plac plac bate a lata”, refrão de um bloco de sujo, soam rimas de extrema inocência, a purpurina presa ao travesseiro, imagens de um Carnaval mais carioca, menos Ondina, circuito Campo Grande.

Conheci o Simpatia é Quase Amor em 1985. Pequenos adereços­cartazes traduzindo o amor pela cidade, concentração na Teixeira de Melo, Adega Rio Nápoles, chope em copo de vidro, tulipas imortais. O colete do Carlos Minc, os bigodes do Marcelo Cerqueira, do Milton Temer, a vida em amarelo e lilás. Modestamente, quinze anos depois, participei do CD comemorativo, hoje, três décadas a serviço do nosso Carnaval de rua. Dessa inspiração ipanemense, nasceu o Nem Muda Nem Sai de Cima, bloco tijucano.

Enredos homenageando ícones da região, como Vavá e meus eternos parceiros Paulo Emílio e Aldir Blanc, aproximaram a comunidade dessa festa e o entrudo ganhou contornos de escola de samba. A paixão pelo popular, música e comportamento me carregou pro maravilhoso Escravos da Mauá, uma referência na Zona Portuária. Fiz o samba de 2001. Do carro de som, letra em mímica na rouca emoção, chorei quando a ala dobrou a Avenida Rio Branco, revirada em real transcarioca.

Nos últimos anos, toda a cidade se transformou num imenso Terreirão. Inspirados nomes surgiram na certidão do samba. Alguns: Chupa, mas não Baba, Põe na Quentinha? ou Quero Exibir meu Longa, comida e sensualidade. Os clássicos Gigantes da Lira, Barbas, Arteiros da Glória. Permanecem Zé Keti, Braguinha e João Roberto Kelly.

No domingo de Momos, serei mais um folião no Cordão do Boitatá. Compus com a querida Teresa Cristina uma marcha­frevo pra esse belo bloco concentrado na Praça XV.Índice pro novo ano, depois que o Carnaval passar, recorro aos autores Luiz Antônio e Luiz Reis pra fechar a crônica e aplaudir a festa: olha o bloco de sujo/ vai batendo na lata/ alegria barata/ Carnaval é pular.


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