Renata Vilhena: Desalento ao mercado

A maior parte das operadoras cobra, sim, e caro. Resta aos clientes pagar para não ter o serviço que contrataram

Por O Dia

Rio - O ministro da Saúde, Arthur Chioro, vem soltando declarações polêmicas. Ao ser questionado sobre a saúde suplementar, respondeu: “O que não dá é as pessoas quererem ter um plano e não pagar o valor real. É o ‘finjo que estou te cobrando, e você finge que está me pagando’.” Declarou também que “todos reconhecem que há um subfinanciamento da saúde”.

Triste, essa ‘impressão sobre o fingimento’. A maior parte das operadoras cobra, sim, e caro. Resta aos clientes pagar para não ter o serviço que contrataram. O resultado é uma avalanche de processos. Além disso, a relação entre consumidores e operadoras deveria ser pautada pelo equilíbrio e ética contratuais, e não ser considerada um jogo, no qual uma das partes sempre sai perdendo. Não é difícil imaginar quem.

Essa distorção se observa nos planos que cobram barato só para capturar o cliente, deixando a desejar na hora de prestar serviços e, ainda, nos que cobram um preço, aparentemente justo, e depois aumentam abusivamente as mensalidades, alegando “alta sinistralidade” e “mudança de faixa etária”, entre outras justificativas movediças para atrair o consumidor.

Aparece também na extinção dos planos individuais, o que obriga o consumidor a aderir às carteiras coletivas, sem falar do impedimento ao idoso. Basta a pessoa fazer 60 anos para que fique fora do alvo de atenção do mercado, sendo recusada pelas operadoras. A maioria não tem planos para essa faixa e, quando tem, o idoso precisa pagar, por mês, o equivalente a três aposentadorias, o que inviabiliza a contratação. Por isto, ele e tantos outros recorrem ao sistema público ‘subfinanciado’.

Diante de declarações de uma autoridade que deveria zelar pelo interesse social, o que esperar? Se a população não lutar pelos direitos que estão na Constituição, o cenário não mudará. Certo é que aqueles que fingem cobrar, segundo Chioro, têm negócios que vão de vento em popa, enquanto os consumidores que pagam têm de brigar pelo bom ou justo atendimento até na hora da doença e na velhice.

Renata Vilhena é advogada especializada em Direito à Saúde

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