Francisco Alves Filho: Precisamos do Carnaval

Para a maioria dos cariocas, esses dias de bagunça festiva nunca foram tão aguardados. Na quarta, voltaremos a tratar de mazelas

Por O Dia

Rio - Foi longo o caminho desde a última Quarta-Feira de Cinzas, há quase um ano, até esta Sexta-Feira de Carnaval. Apesar de todas as dificuldades, enfim, chegamos. Todos sofremos muito, o país e o mundo foram virados e revirados, aconteceram coisas inacreditáveis e o saldo de 2014 e deste início de 2015 foi de doer. Mas, finalmente, está aí a folia para nos dar um tempo para respirar.

É a hora de enfiar o pé na jaca,cantar desafinadamente, pular como criança, abraçar conhecidos e desconhecidos nas ruas, cansar a boca de tanto sorrir. Depois da amargura dos últimos meses, nós merecemos.

A lista de dissabores é extensa: a corrupção na Petrobras, os 7 a 1 da Alemanha, a tal “crise hídrica” (sinônimo besta que os paulistas inventaram para falta d’água), a chuva de tiros em comunidades que deveriam estar pacificadas, explosão de plataforma de petróleo... Essa amostra já é suficiente para confirmar o quanto precisamos dos blocos, das escolas de samba, das ruas cheias de gente fantasiada para colorir a realidade.

Até mesmo quem detesta Carnaval poderá esquecer as tragédias cotidianas. Uma parcela de moradores da Zona Sul vai voltar a reclamar das dificuldades de transitar entre as multidões dançantes. Roqueiros fanáticos terão oportunidade mais uma vez de malhar a batucada, xingar a “pobreza” das letras dos sambas-enredo (como se o rock não fosse um manancial de composições primárias) e coisas do tipo.

Filósofos de boteco com certeza voltarão a desancar essa “obrigação de ser feliz” em tempos carnavalescos, esquecendo que restarão ainda 361 dias até o próximo Carnaval para exercitar sua depressão.

Para a grande maioria dos cariocas, no entanto, esses dias de bagunça festiva nunca foram tão aguardados. Na Quarta-Feira de Cinzas voltaremos a tratar de corrupção, falta d’água, criminalidade e outras mazelas. Agora é cair na maratona dos blocos e caprichar na torcida pelas escolas de samba.

Como confirmação desses tempos estranhos, o Carnaval começa este ano numa sexta-feira 13. O espírito carnavalesco, porém, é mais forte que a uruca. No máximo, a data vai inspirar alguns foliões a ir para a rua vestindo fantasia de bruxa.

Francisco Alves Filho é jornalista do DIA

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