Hamilton Werneck: Treinando monstrinhos

Constantemente encontramos a relação entre perfeição e exigências espartanas como o melhor caminho na preparação de uma pessoa que deseja ser ‘top’ em sua especialidade ou na vida

Por O Dia

Rio - O filme ‘Whiplash’ relata a história de um jovem baterista de jazz e o relacionamento dele com um professor de personalidade colérica e obsessivo em tornar seu discípulo num virtuose. As personagens Andrew Neiman, o baterista, e Terence Fletcher, o maestro-professor, apresentam uma relação conflitiva durante toda a projeção do filme, que chega às telas brasileiras com o subtítulo ‘Em busca da perfeição’.

Constantemente encontramos a relação entre perfeição e exigências espartanas como o melhor caminho na preparação de uma pessoa que deseja ser ‘top’ em sua especialidade ou na vida. O filme marca esse aspecto, tentando dizer a mesma coisa expressa no axioma latino “per aspera, ad astra”. Para se chegar ao topo, como os astros, o caminho é a dificuldade e a aspereza.

Verdade seja dita que os caminhos para se atingirem determinados postos são árduos. Um atleta sofre muito para derrubar marcas olímpicas, exigindo diariamente de si mesmo alguma superação.

A questão é se este tipo de pedagogia aplicada para obter a ‘perfeição’ é a mais adequada para o psiquismo de um humano. O modo colérico de agir — como se o berro, a reprimenda e exigências descabidas obrigatoriamente devessem fazer parte desta busca — pode, perfeitamente, desestimular e até deixar marcas traumáticas conforme a resistência psicológica de quem se submete a este tipo de tratamento. O mais importante é saber se o baterista perde ou não a felicidade de viver para atingir o grau de perfeição diante da metodologia imposta pelo professor.

A tendência é olhar o produto, e não o processo. O filme foca o produto e o apresenta como o melhor em termos de acabamento. O processo, no entanto, pelo fato de ser descabido, com resquícios de elitismo nazista, perfeitamente pode formar alguém com uma neurose perigosa, camuflada; no dia que eclodir, a sociedade saberá que não se trata de um virtuose marcado pela perfeição e, sim, um monstrinho treinado.

Portanto, cuidado! Monstrinhos treinados colocam o diploma debaixo do braço e defenestram os filhos dos andares mais altos dos prédios.

Hamilton Werneck é pedagogo e escritor

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