Por bferreira

Rio - Eu estava voltando do “ao vivo” no programa da maravilhosa Fátima Bernardes. Para além do ‘Encontro’ com ela, eu encontraria o cara pobre que fui, ali, sentado às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas. Já na ida com o motorista da Globo, eu tinha elogiado a radio que ele ouvia, só tocava musicão. E eu tinha postado foto nas redes sociais, avisando que eu estava a caminho do programa. Tantos pediam que eu mandasse beijos durante a transmissão, outros convidavam para jogar Crush não sei o que, na internet. E eu lá questionando selfies, fotos e solidão destes ao não terem ao vivo companheiros para bater papo ou fotos, se entreter com cartas e beijos, no rosto ou na boca.

Ou seja, eu ali, vestido de Odete Roitman, a rica e cheirosa, topete armado, já no maior climão de que o personagem que aparece na tela é só mais um dos Miltons possíveis, dentre os vários que convivem em minhas entranhas. Igualzinho ao resto da humanidade, como vocês. Eu sei que só muda de endereço, e este privilégio potencializado no artista é democrático, está em todo mundo: a máscara, a persona que interpretamos. Do nada, começou a tocar ‘Skyline Pigeon’ com Elton John no som. Como eu estava olhando para o calçamento iluminado pelo sol, que pavimenta a margem do espelho d’água, os acordes já me mantiveram lá e o cérebro estilhaçou e voltou, mergulhado na força do redemoinho de emoções: na rua de terra batida, vermelha, empoeirada, eu chego num sábado de manhã num cursinho de inglês na periferia de Belém do Pará dos anos 70, para aproveitar a aula de graça que todos podiam fazer para avaliar se continuariam ou não. Sem dinheiro para me matricular, para mim aquilo era o evento. Passei quatro horas cantando a bendita música com o gordo professor e outros alunos que perdi na poeira dos tempos. E fui repetindo cada frase, catando os significados, me lembrando da roupa sórdida, única que tinha para usar.

E do esforço gigante para aprender, crescer, porque sábado era dia de brincar, descansar, não fazer nada, três atividades que em absoluto não interessavam para a criatura que tinha que lançar-se ao mundo, pois não viraria suco na centrifugadora do destino, voraz máquina que tentava me convencer de que daquilo eu não passaria.

Eu andava léguas para chegar a pé no destino e ouvir gente falando inglês. Senti os cheiros, a força das vísceras incomodadas pela imobilidade: “Liberte-me de suas mãos, deixe-me voar por terras distantes desconhecidas, não quero ser a sombra triste, preciso encontrar o vento que mude a maré, sou um simples pombo esperando de novo abrir as asas e empreender maravilhoso voo em direção aos sonhos”. Tudo o que eu precisava ouvir para arrumar a mala que minha alma sempre foi!

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