Por bferreira

Rio - O mundo está muito patrulheiro. Todo mundo metendo o bedelho onde não é chamado. Na Copa do Mundo no Brasil, os alvos eram os torcedores que “nunca haviam ido ao Maracanã” e que então tiravam fotos empolgados dentro dos estádios do país acompanhando os jogos. Era um tal de apontar o dedo contra famílias que iam prestigiar o evento como se fosse proibido participar da festa. Uma chatice.

Agora, sinto a mesma sensação no que diz respeito à torcida pela Portela. Ora, como alguém que nunca pisou em Madureira pode torcer pela Azul e Branca do bairro? E eu pergunto: qual o problema? Os puristas do samba insistem em criticar. Cada um torce por quem quiser! Aos 9 anos, com pai Beija-Flor e mãe mangueirense, fui seduzida pelo enredo em homenagem a Lamartine Babo (‘Só dá Lalá!’) e virei Imperatriz Leopoldinense. Sei esse samba até hoje na ponta da língua. Anos à frente, torci pela simpática Caprichosos de Pilares, entusiasmada pelo seu samba, que dizia: “Onde andam vocês? Ô ô ô... antigos carnavais, dos sambistas imortais, bordados de poesias...” Também sei de cor ‘E Por Falar em Saudade’. Quando a Viradouro veio com Dercy em sua estreia no Grupo Especial (com o enredo ‘Bravíssimo!’, de 1991), o senso de comunidade falou mais alto e, por ter nascido em Niterói, passei a torcer pela Vermelha e Branca da minha cidade natal. E por Luma de Oliveira, a carismática musa de todos os tempos da Sapucaí, com seus factoides e prazer de estar ali. E depois por Juliana Paes, a morena brejeira do Barreto, bairro onde fica a quadra da Viradouro. Duas lindezas com samba no pé. Enfim, torço por quem meu sangue ferve.

Não sou do samba, nunca vi um desfile de raiz na Intendente Magalhães, mas desde 1998 não deixei de assistir a uma só escola no Sambódromo, ‘in loco’. Meu coração treme com as baterias. Tenho cenas, carros e campeonatos guardados na memória. E neste Carnaval, sim, eu vibrei com a Portela e sua águia megalômana. Quando ela se abaixou para passar na torre de TV e deu certo, erguendo-se majestosa naquele corpo de Cristo Redentor, eu torci como em gol de Romário na Copa de 1994.

Não sou boleira, nem sambeira. Mas sou brasileira, e futebol e samba estão no DNA. Se eu só me importar com isso de vez em quando, ninguém tem nada com isso. Deixa eu brincar com a minha liberdade. E xô, patrulha!

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