Por bferreira

Rio - Confesso que tenho uma antipatia especial por quem se acha o último biscoito recheado do pacote. Aquele tipo que fura fila, que dirige pelo acostamento numa estrada engarrafada, que para na vaga do idoso quando tem 30 anos, ou não sente a menor culpa ao estacionar na vaga de cadeirante em estacionamento de shopping, mesmo não tendo a menor dificuldade de locomoção. Pois a estes tipos soma-se, nestes tempos contemporâneos, o ciclista que circula pelas ruas dos bairros descolados da nossa cidade.

No simpático bairro da Gávea, por exemplo, os ciclistas simplesmente ignoram os pedestres. A calçada é deles, o direito à circulação é deles e o ego deles é tão insuportavelmente forte que você, simples transeunte, é apenas um desagradável obstáculo. Um poste fora do lugar ou um cone esquecido. Por mais que aumentem o número de ciclovias não adianta nada. Quem disse que é com eles? Só se interessam pelas tais ciclovias na hora de reclamar da prefeitura. E não são simplesmente as bicicletas comuns, de pedal, que abusam da falta de respeito. As patricinhas de elétrica ou os sarados de meia idade com suas novas máquinas são ainda piores, mais especiais ainda que os outros especiais da bicicleta comum.Só são iguais mesmo na falta de educação. Neste quesito, as ruas Padre Leonel Franca, Marquês de São Vicente e Professor Manuel Ferreira devem ser campeãs mundiais.

Semana passada, saindo de um consultório médico, quase fui atropelada umas três vezes por estes ciclistas de calçada. Na porta do Shopping da Gávea também não é diferente. E, sem cerimônia, mães e pais carregam os filhos de carona, empenhados em formar os sem educação de amanhã.Mas não é só na Gávea. A Visconde de Pirajá, na altura do Fórum de Ipanema, é outra cilada pro pobre pedestre. Ali também há que se ter mais cuidado na calçada do que no asfalto porque nos cruzamentos os carros são menos arrogantes que os descolados e modernos ciclistas. Na Visconde eles vêm da esquerda ou da direita , e nunca estão empurrando a bicicleta, estão sempre montados e apressados.

Mas como na vida das cidades tudo pode piorar e sempre piora, a novidade no momento são os motoqueiros que evitam o asfalto e preferem circular em alta velocidade pela calçada da eternamente engarrafada Avenida Niemeyer, já em São Conrado. Como se já não bastasse achar que entre os carros é a pista deles e impedir motoristas de mudar de faixa, agora podem atropelar você quando ousadamente você sair da portaria do seu prédio. Apesar de tudo, vou parar de reclamar só para torcer para que o novo ano que agora promete começar de verdade traga mais água nos reservatórios, menos aumento de luz, mais compreensão e uma enorme onda de educação para que possamos conviver melhor e descobrir que a civilidade é possível se a gente conseguir não esquecer que o outro existe e também merece ser especial, sem arrogância.

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