Por bferreira

Rio - Ainda estou apoplética com uma inusitada abordagem no elevador residencial. Um menino, certamente com menos de 6 anos, ao me ver embarcar no décimo andar e antes mesmo de a porta, automaticamente, se fechar, me fulminou com a pergunta:

— Qual é o teu carro?

Demorei a entender que era a mim que interpelava, mas ele, com voz aguda, insistiu:

— O teu carro é o... — e falou o modelo, a marca e alguns atributos (todos desconhecidos por mim).

Ao invés de responder, perguntei por que ele gostaria de saber que carro eu tinha e ele, com a mesma velocidade das perguntas, metralhou:

— O meu é um... — e falou sobre modelo, a marca e outros atributos do veículo dele. Também todos desconhecidos por mim.

Felizmente eu desci no térreo e ele seguiu em direção à garagem. Mas aí já era tarde: eu não cabia em mim, em estado de total indignação, sobre aquele diálogo matutino. Ricocheteavam em minha mente dois segmentos de fala, como fantasmas soltos, se entrecruzando: o meu carro e os atributos bem demarcados e enumerados.

Esse pronome possessivo e a menção valorizada de cada item diferencial do tornaram-se meus inimigos, ao mesmo tempo em que eu tentava me convencer de que ele era apenas uma criança de 6 anos.

Não é de se estranhar que eu desconheça os carros mais valorizados e modernos do mercado. Minhas prioridades e interesses são outros. Todavia, angustiada, continuo me perguntando o que poderia levar uma criança a valorizar e ostentar tanto um bem de consumo do mundo adulto. Nada que eu elaborasse, emocional ou psicologicamente, me acalmaria.

E, enquanto percebo o quão perversa é a inversão de valores e quanto poderosa é a mídia, percebo ainda mais claramente em que medida a escola precisa se empoderar de conhecimentos e aprofundar suas reflexões para que possa, de fato, mediar a competência leitora de seus estudantes. Pois só de posse de uma visão mais ampla de mundo é que se refreará o poder absolutista do consumo, se resgatará a valorização das relações afetivas e se devolverá à criança e ao jovem o direito de sonhar e de se preocupar em decorar poemas que lhe deem prazer e o conhecimento relacionado à ludicidade e ao encantamento.

Sandra Bozza é socióloga

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