Por bferreira

Rio - Quase todos os cariocas, de historiadores aos passistas de escolas de samba, já opinaram sobre o patrocínio do ditador da Guiné Equatorial ao desfile da Beija-Flor. Aos 46 minutos do segundo tempo, aí vai mais um pitaco sobre o assunto. Para começar, uma correção: o que se viu na Sapucaí não foi uma exaltação ao governo de Teodoro Obiang, mas uma homenagem ao país e à África. Talvez o enredo não tenha merecido nota máxima por outros motivos, como incorreções na reconstituição das tradições africanas. A puxação de saco ao ditador no Sambódromo, se houve, foi tão sutil que ninguém notou.

O pior nesse episódio não tem relação com o universo do Carnaval, mas com o uso político que o ditador fará desse título conquistado pela escola de samba de Nilópolis. A vitória servirá para exaltar o seu governo, algo perfeito para mostrar aos guineenses (ou mais precisamente aos equato-guineenses) que Obiang é capaz de colocar seu país no topo do evento brasileiro que atrai atenção internacional. O valor publicitário conferido à ditadura pela Beija-Flor, isso sim, deveria ser lamentado — e muito.

Quanto aos questionamentos sobre a origem dos recursos , não há como negar que é dinheiro sujo. Tenha vindo dos campos de petróleo que Obiang domina desde o fim da década de 70, à custa da opressão de seus opositores, ou de empresas indicadas pelo ditador, dá no mesmo.

Nesse item, no entanto, não se pode condenar a Beija-Flor, já que o dinheiro sujo financia há muitas décadas os belíssimos desfiles que os sambistas apresentam na Sapucaí. Bicheiros, esses figurões que construíram seus impérios com sangue e na base da corrupção policial, são os patronos mais frequentes, mas há também os traficantes e os milicianos a gastar dinheiro na avenida.

São estes patronos que dialogam com o poder público, que são reverenciados por socialites e se mostram no Sambódromo cercados por policiais. Já se incorporaram à paisagem moral do Rio e ninguém os incomoda. Se é assim, qual o problema de receber patrocínio de um ditador africano? Diria Stanislaw Ponte Preta: “Restabeleça-se a moralidade ou então locupletemo-nos todos.” Atualizando: proibimos o financiamento da contravenção ou a porteira estará aberta aos ditadores e afins.

Francisco Alves Filho é jornalista do DIA

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