Por bferreira

Rio - Relatos dão conta do aumento da violência no Carnaval: estupros e roubos no Rio, abuso policial em São Paulo, lesões corporais leves em Salvador. Lá, foram duas mortes e 21 feridos com disparos de armas de fogo. O governador da Bahia, Rui Costa (PT), afirmou que a separação dos foliões que pagam por abadás é uma causa da violência. Para o governador, as cordas comprimem o folião que está de fora, resultando em brigas.

O Carnaval, com suas distinções de classe que acompanham as multidões, virou retrato trágico do apartheid social: há os camarotizados, os cordanizados e o grupo tido como a ralé da pipocação, o que gera desconforto e indignação. Essa ralé, como se vê, é a que está fora da Saúde, da Educação de qualidade, do trabalho seguro, da moradia decente, do consumo despreocupado.

Considerando-se que vivemos no continente mais violento do planeta e num dos países que mais assassinam pessoas, e onde praticamente não existe o império da lei, toda grande concentração de pessoas num espaço territorial angusto é nitroglicerina pura. A explicação biológica e psicopatológica é a seguinte: os humanos somos tribalistas. Nós nos identificamos com as pessoas do nosso grupo e não nutrimos simpatia nem empatia com os demais, com “os outros”. A tribo da corda não tem empatia com “os outros”, sobretudo com a ralé da pipocação.

Quando o tribalismo interage com os sistemas cerebrais de dominação e depredação, a agressividade e a violência explodem. Quem ocupa status mais baixo e acredita que tem o direito de também integrar o mais alto exibe intenso ressentimento, que leva à violência — ou mesmo a guerras entre países ou extermínios coletivos. E o inverso também ocorre: quem tem alto status pode atuar com agressividade e violência contra os “outros” para reforçar seu hipotético domínio. Outro fator relevante é o territorialismo, que também se faz presente no Carnaval, cujos espaços físicos são demarcados: o pessoal camarotizado não se mescla com os demais e os cordanizados não aceitam a invasão da patuleia.

Luiz Flávio Gomes é jurista e professor

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