Por bferreira

Rio - A menos de uma hora do desfile da Viradouro, uma tempestade deságua sobre a escola, ainda concentrada na Presidente Vargas. Um dilúvio de transbordar a Cantareira, da natureza fazer brotar outro afluente no Paraíba do Sul, chuva pra desmanchar as penas do destaque na frente da cabine dos jurados. Meu carro alegórico tem a altura máxima permitida no regulamento da Liga responsável, o ‘cocuruto’ raspando na torre de TV no setor 13. O famoso guindaste Carvalhão nos reboca em solavancos feito a montanha russa do Parque Xangai pro topo da fantasia, nítida distância dos parentes e amigos que honram com seus sapatos brancos o asfalto de um sambista. Lembrei de um antigo programa de televisão, ‘O Céu é o Limite’.

Protegido na estrutura do carro, um redondo simbolizando o pandeiro do partido alto, cresce a emoção de estar ali homenageando meu parceiro Luiz Carlos da Vila, o enredo dessa agremiação niteroiense. Raios abrindo o negro das nuvens não conseguem abafar o som dos fogos na entrada da comissão de frente. A bateria obedece a andamento do cavaquinho, escuto os primeiros versos de um samba imortal.

Estou a cinco andares da civilização. De esguelha, percebo que o Mangue sobe o nível, rio que deságua na Praça da Bandeira, lama arrastando pra longe as tristezas de um Carnaval. Estamos todos ungidos na inspiração do poeta: é preciso atitude de assumir a negritude, pra ser muito mais Brasil! Um dia antes,cruzei a mesma avenida com a Renascer de Jacarepaguá, escola do Grupo de Acesso na hierarquia do concurso, e campeã no coração de um tímido folião de cintura larga. A arquibancada repete o refrão “Axé, Candeia, axé!” Versos do samba que fiz com Teresa Cristina e Claudio Russo. Lágrimas se misturam a uma leve cortina d’água, garoa que refresca a Passarela. Até a Apoteose, momentos de êxtase por estar personagem nessa grande ópera popular, reis e escravos entre grilhões de euforia.

O carnavalesco é o Deus desse mundo de isopor, ferro e paetês. Mulheres desnudas. homens magros se curvando à velha guarda, a escola pede passagem. Do lado de fora, os blocos singram as ruas da cidade e, testemunha, semblantes de alegria desde o Cacique de Ramos até o Simpatia é Quase Amor, subúrbio e mar dividindo a batucada. Em todos os botequins o azul da TV ligada predomina no breu da madrugada.
Parabéns a Estácio! Salve a Beija Flor!

Os carros voltam ao barracão feito um lutador nocauteado. Os pontos perdidos parecem palavras mal usadas, não saem da cabeça. A emoção desses dias não tem preço. São promessas descumpridas quando o primeiro ensaio acontecer, novas rimas, paradinhas, magias do Carnaval.

Ah, amanhã tem mais!

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