Por bferreira

Rio - A cada Carnaval surgem ‘inovações’ que nos fazem distanciar cada vez mais da essência da folia de rua do Rio: as marchinhas, as fantasias originais, as brincadeiras em família num clima quase ingênuo. Hoje, sobram violência e excessos, que vão desde o consumo de álcool e outras drogas, passando pela permissividade e sexualidade desacerbada, até a ostentação que chegou às escolas de samba, que promovem o maior Carnaval do planeta. Uma ditadura imposta já há alguns anos, no qual o luxo e a riqueza se tornaram a prioridade.

É perceptível que em vários segmentos a evolução impôs inovações que fez com que se perdesse o foco da origem, da razão de ser. E tem sido assim no Carnaval: a comunidade, o samba no pé e a empolgação das agremiações deram passagem para fantasias cada vez mais pesadas e repletas de acessórios que impedem o sambar. A animação dos componentes perde a atenção do público quando as alegorias de LED e animações pirotécnicas entram na Avenida.

O Carnaval de hoje não é mais para o povo ou para a comunidade humilde usufruir e curtir depois de um ano de duro trabalho no barracão. Ficou praticamente restrito a um grupo de alto poder aquisitivo e de celebridades que assiste aos desfiles nos camarotes e frisas, tendo a melhor fatia da festa. E o povo, os poucos que conseguem o acesso, se espreme nas arquibancadas, expostos ao tempo, à chuva. Um dos maiores intérpretes brasileiros, Zé Ramalho relatou muito bem isso na canção ‘Cidadão’, de Lúcio Barbosa. Nela é contada a história de um operário que ajudou a levantar prédios, construir escolas e igrejas, mas em todos esses lugares é impedido de entrar.

Com patrocínio de um ditador africano, a Beija-Flor venceu e ratificou que o Carnaval virou indústria, no qual a ética, a moral e o bom senso não são considerados na avaliação da origem do dinheiro. Pouco importa se na Guiné Equatorial mais de 75% da população vive abaixo da linha da pobreza, pois o importante foi o espetáculo.

Qualquer semelhança é mera coincidência (ou não) com a nossa realidade. Pouco nos importamos que cerca de 20 milhões de brasileiros ainda vivem em pobreza extrema. Não estamos atentos que na própria cidade maravilhosa, palco do evento, ainda há carências básicas, pois o show não pode parar. A folia é ditatorial.

Marcos Espínola é advogado criminalista

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