Por bferreira

Rio - É espantosa a nossa capacidade de aceitar passivamente a poluição sonora na cidade. Parece que não conseguimos observar nem mensurar o impacto. Não refletimos ou discutimos. Será que ninguém se importa com isso?

Nas ruas, as freadas dos ônibus, as buzinas dos carros e os apitos de um sem-número de guardas de trânsito (nunca vimos tantos fiscais espalhados pelos bairros) compõem uma sinfonia agitada que é recheada com a sirene dos carros da polícia e das ambulâncias, com os alertas das garagens dos edifícios e com as britadeiras de plantão. Nos corredores de comércio, somam-se, ao cenário, os ambulantes que se alternam numa disputa acirrada de decibéis. Isso sem falar nos carros de som de pequenos estabelecimentos que circulam (ou tentam, na cidade que não anda) pelas ruas anunciando as promoções do dia — quem diria que teríamos saudades da antiga inocente Brasília, aos domingos, à tarde, vendendo pamonha quentinha?

É nessa cidade barulhenta que falamos num tom cada vez mais alto. Seguramente, ele deve ter sido triplicado nas últimas décadas. Sempre acho engraçado quando deparo com a advertência aos passageiros dos ônibus públicos: “Fale somente o indispensável ao motorista.” No tipo e volume dos ringtones, estridentes e inapropriados. E fico pensando também que já não é mais preciso grampear nenhuma conversa telefônica.

Tudo é dito em alto e bom som, sem nenhum requinte de privacidade. Conheço várias pessoas que se deliciam escutando as conversas telefônicas dos outros nos transportes públicos.

Neste ambiente sonoro, percebo o uso cada vez maior dos fones de ouvido — uma característica, inclusive, marcante das novas gerações. Talvez seja puro modismo. Ou uma forma inconsciente de optar por outra trilha sonora para a rotina já estressante. Mas a iniciativa individual parece só amenizar o problema que é, na verdade, uma questão de saúde pública. E que ninguém quer (ou finge não) ouvir!

Marcus Tavares é professor e jornalista especializado em Midiaeducação

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