Por bferreira

Rio - As manifestações de 2013 tiveram início como reação ao reajuste das tarifas de ônibus. E começaram lideradas pelo Movimento Passe Livre, que tem como principal bandeira a gratuidade no transporte urbano. Na época, isso me levou a pensar duas vezes antes de questionar a tarifa zero como objetivo central na luta por melhorias na mobilidade urbana. Não é confortável criticar quem está na rua enfrentando a polícia, em defesa de direitos da cidadania. Agora, porém, resolvi escrever este artigo. Que sirva como contribuição à luta por transporte melhor e mais barato.

A proposta de tarifa zero conta com simpatia geral porque, além da gratuidade em si, dá a impressão de que afetaria os lucros das empresas concessionárias. Mas é só impressão. Elas continuariam a receber pelos serviços prestados. A introdução da tarifa zero faria apenas com que passassem a ser remuneradas diretamente pelas prefeituras, e não pelos usuários, como é hoje.

Sejamos claros: seria uma situação até mais cômoda para as viações. Reajustes não seriam sentidos pelo povo, e aumentaria a possibilidade de abusos na correção das tarifas sem o risco de reação popular.

É verdade que, ao não pagar pelo transporte, as pessoas teriam um gasto a menos. Mas os recursos das prefeituras usados para remunerar as empresas deixariam de ser aplicados em outros serviços — talvez em Saúde e Educação.

Há quem defenda a estatização como saída. A proposta deve ser debatida. Hoje certamente melhoraria o quadro, pois máfias privadas corrompem executivos e legislativos municipais e dão as cartas. Mas é preciso lembrar que, com transporte estatizado e passe livre, os custos ficariam com as prefeituras.

Daí que — defendendo-se ou não a estatização — hoje a bandeira central deve ser a abertura das caixas-pretas das concessionárias e a realização de auditorias independentes, acompanhadas pela sociedade. Isso, sim, afetaria os barões do transporte e diminuiria as tarifas.

No caso do Rio, a prefeitura sequer tem levantamento próprio de gastos e receitas das concessionárias. Aceita os números que estas lhes passam. É tudo em confiança.

Não por acaso a bancada do prefeito Eduardo Paes resistiu tanto à instalação da CPI dos Transportes.

Cid Benjamin é jornalista

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