Por bferreira

Rio - A relação entre a ditadura da Guiné Equatorial com a Beija-Flor é indefensável, mas não custa ter cuidado antes de se lançar tantas pedras na direção da agremiação de Nilópolis. Não dá para cobrar de uma escola de samba a pureza que não é praticada por governos e grandes empresas que, em nome do pragmatismo diplomático e de lucros, prestigiam ditadores e com eles fazem negócios.

Escolas foram criadas por comunidades pobres, discriminadas, encurraladas pela polícia. Na luta por sobrevivência e pelo reconhecimento da sociedade, fizeram pactos com pessoas também perseguidas e que buscavam um tipo de respaldo. Paulo da Portela, que lutou para dar legitimar o samba, e Natal, que institucionalizou a ligação do jogo do bicho com as escolas, são personagens complementares, não contraditórios. A mão do samba lavou a da contravenção, e vice-versa. Juntas, apertaram as mãos de poderosos que, assim, abençoaram o pacto, e dele se beneficiaram.

Seria impensável achar que, na primeira metade do século passado, governos e empresas aceitassem patrocinar grupos carnavalescos formados por negros pobres. Nascidas e criadas num país marcado por ditaduras, as escolas de samba reproduziram, em suas relações internas, uma lógica autoritária, pouco democrática e centrada na figura de um protetor. Uma estrutura que se fortaleceria com a criação da Liesa, Liga Independente das Escolas de Samba: para transmitir e cobrir os desfiles e para expor publicidade no Sambódromo, TVs, rádios, jornais e anunciantes são obrigados a negociar com aqueles que detêm o poder nas agremiações.

A grita em torno da campeã de 2015 deveria gerar uma outra discussão sobre o financiamento dos desfiles. Não é razoável que muitas das responsáveis pelo maior dos espetáculos fiquem dependentes de patronos, é só ver o baque que a morte de Castor de Andrade causou na Mocidade. É também absurda a passividade com que escolas aceitam caprichos de patrocinadores. Não cabe ao Estado intervir nas agremiações, mas nada impede sua atuação como indutor de práticas que gerem mais transparência. Beneficiadas por verbas oficiais, as escolas deveriam ser obrigadas a prestar contas de seus gastos e a regularizar a situação trabalhista daqueles que lhes prestam serviços. Uma gestão profissional, capaz de explorar o valor de marcas poderosas, faria bem às agremiações e, principalmente, às comunidades que as criaram. Com independência econômica ficariam mais autônomas e menos dependentes de ditadores, locais ou estrangeiros.

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