Milton Cunha: Heteronormativa

Vejo glória no palhaço, sinto orgulho de ser desviante, desta não morro, não entortarei...

Por O Dia

Rio - O mundo heteronormativo seria o mundo que legisla que a melhor forma de agir seria a heterossexual. Pode ser gay, mas não dê pinta. Vista-se discretamente, de preferência azul marinho ou marrom, as cores ditas de homem respeitável. Não desmunheque, não revire os olhinhos, vigie-se. Passe uma aura de entendedor de tudo, empine o nariz, finja que você é o rei da cocada preta. Por trás deste pensamento haveria um poder coercitivo que anularia charme individual porque mundo bom seria mundo em série, com tudo e todos dançando conforme a música. Fale como homem, se diz. Mas vem cá, como homem fala? E as crianças vão crescendo, tentando corresponder às exigências do mercado,comportando-se o mais similar possível dos adultos que viraram seus modelos admirados.

Quem é diferente é engraçado, estranho, exótico. Adoro a palavra excêntrico, pois este sujeito é fora do centro, ou da norma hétero, dita normal. Haveria um centro, um buraco negro que tudo absorve, menos os que gravitam nos limites, nas margens, os marginais. Quem são estes limítrofes, os que não puderam, não quiseram, não conseguiram o crachá de existir passando batido, ser discreto, não chamar atenção, ser só mais um na multidão? Somos nós, um povo que decidiu assumir um outro borogodó.

Cláudio Nascimento, o líder LGBT do Governo estadual, tem protestado veementemente nas redes sociais contra o crítico da revista ‘Carta Capital’ que me considera o de voz de barítono enferrujado, pouco chegado a vulgaridades e uma espécie de palhaço da transmissão do Carnaval. Cláudio vê viés heteronormativo na crítica. Eu me divirto, ao contrário dele. E tenho consciência de que eles dois têm que existir. O mal-humorado poderoso que não sabe o que fazer comigo, como me classificar, em qual prateleira me acomodar; e o líder governamental que batalha por um mundo mais inclusivo, que legisla contra a sutil discriminação, que tratam com seriedade questões de preconceito e poder padronizador. Agradeço. Mas conheço bem o chicote, diria até que dele sou íntimo. Mas destemido, sigo em frente dizendo-lhes os versos do Cântico Negro: não sei por onde vou, não sei pra onde vou, só sei que não vou por aí! Como meu sonho é ser Chacrinha, aquele que não estava aqui para explicar e sim para confundir, adoro virar meme na internet, ser imitado nos programas de televisão, fazer rir a multidão. Foi pra isto que vim ao mundo, vejo glória no palhaço, sinto orgulho de ser desviante, desta não morro, não entortarei. Nunca fui Santa, nem sério.

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