Francisco Alves Filho: A solidão veste farda

Beltrame tem razão quando chama outros setores a tratar do problema, como o Legislativo e o Judiciário

Por O Dia

Rio - O assunto é próprio para poetas românticos e autores das músicas de dor de cotovelo. Nos últimos dias, no entanto, foi o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, quem levou o tema aos noticiários: a solidão. Falava mais exatamente do isolamento da instituição que comanda. Diante da série de ataques de criminosos a policiais, muitos deles com vítimas fatais, reclamou: “A polícia está sozinha.”

Ao mesmo tempo, Beltrame tem e não tem razão. Difícil pedir à população para caminhar ao lado da Polícia Militar enquanto produzir tantos casos de truculência e corrupção. Episódios recentes, como aquele em que Alan de Souza Lima, jovem de 15 anos, foi assassinado por PMs na comunidade da Palmeirinha, confirmam o descaso com que é tratada a vida humana — especialmente quando na mira está alguém pobre.

O único ‘crime’ de Alan e seu amigo (também ferido por tiros), Chauan Jambre, foi se enquadrar no perfil preferencial dos alvos: jovens, negros e moradores de comunidades. Junte-se a isso a coincidência de que, por pura brincadeira, estavam correndo no momento da chegada da polícia. Os soldados não hesitaram em apertar várias vezes o gatilho. Para completar, alegaram que os dois foram alvejados “em confronto”. Não fosse um vídeo gravado por celular essa versão ficaria para a eternidade.
Tragédias desse tipo se repetem aos montes, assim como histórias de corrupção dentro da corporação. Por isso, boa parte da sociedade resistirá muito a abraçar uma instituição marcada por esse estigma.

Apesar disso, Beltrame tem razão quando chama outros setores a tratar do problema, como o Legislativo e o Judiciário. Se é ruim, quanto mais isolada ficar a PM, pior será. É preciso entender que, além do policial que deliberadamente pratica extermínio dentro da favela, há também aquele que age de forma violenta por puro despreparo para enfrentar situações de perigo. O número de PMs mortos comprova o quanto este risco é real. É preciso impedir que morram e que matem.

Diante do treinamento insuficiente e da estratégia frágil, homens fardados tratam de fazer justiça a seu modo. São culpados por isso tanto o Estado, que os coloca em tal situação, quanto uma parcela da sociedade civil que incentiva a truculência e usa a corrupção a seu favor. É preciso que até mesmo quem defende o fim da PM se aproxime. Enquanto a corporação existir, deixar policiais entregues à própria sorte será ruim para eles e também para jovens inocentes, como Alan.

E-mail: chico.alves@odia.com.br

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