Karla Rondon Prado: Relações sociais

Infringir as leis que regem a boa convivência em sociedade ajuda a tornar o mundo pior

Por O Dia

Rio - Certas pessoas têm a ‘licença poética’ de tratar mal as outras. Porque têm estilo X ou Y, tal atitude é permitida sem censura externa. “Ah, deixa pra lá, João é maluco”. Ou, “você vai se chatear com Pedro? Ele é grosso mesmo”. “Não fica triste com a atitude da Maria, é o jeito dela!” E nessa, quem segue os preceitos básicos das relações sociais, acaba se agredindo. Porque a pessoa que não é grossa, maluca ou não tem um jeito sem jeito de tratar os outros tem que aceitar que o outro pode burlar algumas regras, e ela não.

‘Tem que aceitar’ até certo ponto. Até perceber que não está mais a fim de brincadeirinhas de mau gosto, ofensas e agressões gratuitas só para o outro manter a fama de mau. Educar através do exemplo, como se diz. Mostrar com a forma que você age como gostaria que agissem. Fico admirada com o ibope que damos aos que nos chateiam, às notícias que nos agridem. É um pouco viciante ver e rever coisas ruins. Como se ficássemos metendo o dedo na ferida, cutucando a casquinha, querendo provocar sensações de emoções ruins para senti-las de novo. Praticamente dando um replay no que te incomodou, relembrando uma experiência de morte.

Há um quê de masoquismo em quem se submete a isso. Em quem flerta com o sofrimento, acha legal ser maltratado. Eu não acho legal ser maltratada. Apenas é difícil que alfinetadas me alfinetem. Realmente não ligo se fulano é grosso, ou quis me agredir, ou estava totalmente equivocado. Ou não ligava. Percebi agora que muitas dessas coisas são agressivas só de ouvir ou ler, e não vou permitir que me agridam. Não da forma anterior, ignorando aquela ofensa e pensando que é apenas o jeito de quem ofendeu. Mas da minha forma atual, de compreender que aquilo é nocivo, e por isso não me deixarei mais ser atacada sem resposta. E a resposta não é o estresse direto do confronto, como nunca foi. A resposta é a ausência. Não é simplesmente deixar pra lá, mas deixar a pessoa lá, bem longe de mim. Ignorá-la por convicção.

Sabe gordo que faz piada de si mesmo? Nem sempre ele está feliz com isso. É só uma defesa que encontrou para afastar o bullying. Precisamos nos lembrar que infringir as leis que regem a boa convivência em sociedade ajuda a tornar o mundo pior. Delicadeza, zelo e atenção são o bê-á-bá disso. Sempre digo que time de Primeira Divisão não pega time de Segunda Divisão (não no campeonato em que foi rebaixado!). Jogue na sua categoria, sabendo o que sabe fazer. Se se rebaixar e não souber fazer isso, vai levar um banho. É vitória certa para o adversário.

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