Moacyr Luz: Em canto, mulheres

Motivos pra seguir buscando rimas, pedras preciosas, dadivosas rosas de Cartola, Carolinas na janela...

Por O Dia

Rio - Foi a cantora Lana Bittencourt quem gravou primeiro uma canção minha. Num pequeno estúdio na Rua da Lapa, sua voz potente rompia as válvulas da época, tatuando meus versos musicais. Calendário empoeirado, 1979, inesquecível pra mim, um futuro compositor.

No começo dos anos 80, uma pernambucana, sotaque arretado, voz de agreste pisando firme no asfalto carioca, escolhe pra si um forró do meu repertório. Elba Ramalho, um presente pra essa carreira de diferentes tons. Com esse pobre violão, trastejando outros arranjos, acompanhei divas como Lenita Bruno e Alaíde Costa, Roberta Toledo e Marília Barbosa. Uma noite no Beco da Pimenta, bar dedicado a Elis Regina, conheci o mito Nana Caymmi. Os dedos tremiam confundindo acordes, mesmo assim, em 1985, ela lançou um bolero com debruns e costuras amorosas feito no ritmo da sua interpretação. Alma buscando fôlego quando, estreando a parceria com Aldir Blanc, a querida Leila Pinheiro cantou ‘O Mar no Maracanã’, enredo pensado em Dora, rainha do frevo e do Maracatu, pai de todos Dorival, o mesmo autor de Marina e Doralice, deusas anônimas. No mesmo cordão, a felicidade de ouvir Leni Andrade. Brincando com o título da canção, Leni trouxe os peixes pro meu ‘Aquário’.

São essas mulheres as musas do nosso destino.

Em 1989, Fafá de Belém gravou ‘Coração do Agreste’ e a madrinha Beth Carvalho, ‘Saudades da Guanabara’. Parênteses. Fui parar em sua casa levado pela cantora Celia no final de 1984, auge do movimento Diretas, Já! Célia também gravou um samba meu e a madrinha, outros sete batuques. O feminino é definitivo no gênero do meu trabalho quando Maria Bethânia grava ‘Medalha de São Jorge’ e ‘Rainha Negra’, esta feita em homenagem à grande mulher brasileira Clementina de Jesus. Recentemente, gravei um disco inteiro com a delicada e talentosa Francesca Adjmar, uma italiana-carioca levando a nossa história pro Mediterrâneo.

Guerreiras como Dorina, Áurea Martins e Aline Calixto. Encantos de Rosa Passos e Fátima Guedes, horizontes de Paula Santoro e Juliana Amaral, luzes da minha caminhada. O orgulho de ter Teresa Cristina na parceria que desaguou no Estandarte de Ouro deste ano às primeiras Amélia Rabelo, Fabíola e Solange Kafouri. Motivos pra seguir buscando rimas, pedras preciosas, dadivosas rosas de Cartola, Carolinas na janela, isso sem falar na tal faixa amarela bordada com o nome dela.

A inspiração pra crônica? Marluci Martins, a minha mulher em verso e prosa, paixão escandalosa, a minha flor na lapela.

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