Por bferreira

Rio - Muito foi escrito sobre a corrupção no Brasil, mas, para se ter a real dimensão do problema, é preciso prestar atenção a um número que vale mais que mil palavras. Sendo mais exato, uma cifra. Algarismos que, depois de um primeiro alarde, passaram a circular nos noticiários sobre a Operação Lava Jato como se fossem comuns, triviais. Não podemos, no entanto, encarar sem o devido espanto a bolada em propina que o Ministério Público Federal conseguiu repatriar da Suíça, vinda da conta de Pedro Barusco, ex-gerente da Petrobras. Somente ele restituiu R$ 182 milhões.

Jornais, rádios e TVs divulgam todo dia uma enxurrada de números sobre os mais variados assuntos e muitas vezes não temos tempo para digerir tanta informação. A megapropina de Barusco, porém, merece atenção especial. Talvez algumas comparações ajudem esclarecer sua grandeza.

A quantia equivale à bilheteria registrada no lançamento do badalado filme ‘50 tons de cinza’, é quase o mesmo que a Fundação Gates investiu em pesquisas para conter o ebola, iguala o lucro semestral do banco HSBC no Brasil, equipara-se ao movimentado no Carnaval de Olinda e é o mesmo que um dos mais tradicionais times ingleses, o Chelsea, receberá pelo contrato anual de patrocínio. E, no caso da propina, tudo foi para a conta de apenas um integrante da quadrilha.

Quem quiser perder tempo pode tentar atribuir cifra tão gigantesca a um partido ou a um governo. A oposição ao PT dirá que foi nos últimos 12 anos que a corrupção chegou a esse ponto. Outros usarão o depoimento do próprio Barusco para demonstrar que o esquemão começou em 1997, ainda no governo FHC. Haverá quem diga que foi o ex-presidente Collor o campeão nesse quesito e ainda existem mil formas de demonstrar que durante o regime militar roubou-se muito sob o manto da censura à imprensa (como no caso dos milhões gastos na malfada Transamazônica, por exemplo).

Para além dessa discussão inútil, é preciso admitir a forma frouxa com que a sociedade brasileira lida com a corrupção no dia a dia. Difícil saber se ainda somos o povo honesto que um dia imaginamos ser.

É certo, no entanto, que, longe dos gabinetes políticos e corporativos, onde correm milhões, as pequenas e médias “espertezas” proliferam rapidamente. Comum é o personagem que aponta o dedo para o deslize do outro enquanto se beneficia de falcatrua parecida. Esperemos que ainda sejam maioria os que lamentam os R$ 182 milhões de Pedro Barusco, e não aqueles que pretendem bater seu recorde.

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