Por felipe.martins

‘Imaginam que eles estão enterrados, os nativos. Entretanto é a raiz que está voltando à terra. Suas mãos calejadas, altivas atravessam o silêncio. A partir da morte, renascemos...”. Eu ali, na escadaria do Museu de Arte Pré-colombiana de Santiago, no Chile, emocionadíssimo a traduzir os versos de Pablo Neruda escritos sobre a grande parede cinza, ao lado do enorme mapa das Américas, dividido em quatro grandes regiões de cultura, fascinantes por terem florescido ao mesmo tempo que aquelas que a gente estuda no colégio, tipo Grécia, Egito e Suméria.

A quem interessa dizimar as referências de nossa gente pré-colombiana, colocando-os no ridículo balaio de gatos que atende pelo nome índios? Eles, senhores de sabedoria relevante para suas sobrevivências, hoje mendigam reconhecimento perante o invasor. Por que será que nos reconhecemos na Vênus de Milo e damos as costas para o povo tupinambá? É este o dilema latino-americano, de baixa autoestima e perdido na vontade de ser a corte que o colonizou. E foram tão eficazes em sua história para boi dormir, que muitos dormem até hoje.

Pois se descortinam finos tecidos maravilhosamente trançados e estampados, joias de tirar o fôlego, uma arquitetura brilhante e funcional, esculturas que são a nossa cara literalmente e uma unidade em ver e pensar o mundo, que seria rompida pela imposição dos Navegantes, Cristóvão e Cabral encabeçando a lista. Eles que vinham com melhores armas, os demônios, diziam trazer a civilização para aqueles que alma não tinham, os tais ameríndios. Que horror, o empreendimento trazido pelos mares pela católica igreja, centrada em seu umbigo de ganância e prepotência, super de olho no ouro e pedras preciosas daqueles catequizados. O invasor nunca quis o bem dos invadidos, fez este discurso para dormir em paz e vender seu peixe, mas sem duvida este processo civilizatório foi incivilizadíssimo, de dar vergonha a quem vê tanta exploração e iniquidade.

O que sobrou e está em permanente exposição, atesta um grupo humano de alto valor filosófico, inteligentíssimo em suas relações sustentáveis com a natureza, capazes de continuar vivendo maravilhosamente sem os brancos. Não foi assim, o resto já sabemos. Mas o que não podemos é engolir a balela de que o caviar francês é melhor que a banana; que o champanhe é mais fino e chique que a cachaça. Colocando o bom acima da linha do Equador, esta gente nos tirou a possibilidade de identificar nas Américas padrões de excelência. E nos restou a cópia, o pastiche. Num calor de 50 graus, temos que usar gravata, bermudas são barradas porque não condizem com a respeitabilidade, portanto 500 anos depois, ainda deixamos os caras-pálidas e seu estilo de vida para a temperatura que faz lá, determinar a visão do tal homem de negócios. Tomara que Neruda tenha razão, e da morte renasçamos....

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