Moacyr Luz: Marcio do Beco

Desaparece o malandro dos meus dias, encrenqueiro feito o anti-herói de anos idos, mas um coração de menino

Por O Dia

Rio - Soube da morte do Marcio Pacheco enquanto me vestia pra feijoada da Portela, comida de todo sábado em qualquer quadra de samba carioca. Marcio acrescentou no de batismo a razão social que despertou o lado escuro da Lapa, o Beco do Rato. Marcio do Beco do Rato. Magro feito uma espada de São Jorge, seu santo de devoção, inventou naquele recuo da Joaquim Silva, entre goles de cachaça e pastéis de angu, que ele encomendava de Itabirito, sua terra natal, um espaço de cultura.

A primeira vez que sentei numa daquelas mesas foi em 2006, tempos de torresmos e dos tais destilados. Eu passava numa transversal quando percebi um burburinho. Vi e ouvi. Na parede paralela à rua, uma lona branca servia de tela improvisada pra apresentar um documentário sobre o choro, gênero musical da nossa gema, sem contar os músicos, que, ao vivo, tocavam de Jacob a Pixinguinha. Me apaixonei.

Aos domingos, feira da Glória na esquina, a variedade nas barracas escrevia a giz o nosso cardápio. Pimentas frescas ardendo mais que as purinhas de Minas, sardinhas sem espinhas, e foi assim que a amizade estreitou. Em dezembro do mesmo ano, criamos o Samba Luzia, evento hoje consagrado às margens da Baía de Guanabara. De longe, o Cristo Redentor, iluminado com a nossa esperança, testemunhou a origem dessa história.

A céu aberto, muitos tamborins foram silenciados pelas chuvas inesperadas, saltos de grife, havaianas encharcadas, ventos de fazer fugir os chapéus da velha guarda. Final feliz, a estrela dessa constelação, o samba, sobreviveu no Cruzeiro do Sul, e a festa, hoje, pertence ao calendário dessa cidade.

O Beco, a matriz, se transformou. Por todo o ambiente, “aquarelas” contornam os perfis de ilustres frequentadores no estribo do bonde batuqueiro. Ainda no salão anexo, uma imagem em tamanho natural do Santo Guerreiro se destaca. O cavalo esguio nos faz supor imune aos inimigos que, mesmo tendo pés, não nos alcançarão. Quando chega abril, mês do soldado da Capadócia, agradecido com as conquistas, Marcio serve um feijão pra mil moradores de rua, um exército de esquecidos na modernidade da região. Não havia charme no gesto, havia sinceridade. Era o ponto fraco da sua personalidade, os necessitados. Fazia fila no bolso esquerdo.

A morte do Marcio do Beco me pesa como a perda do Albino Pinheiro, cai como o Palácio Monroe, vazio irreparável. Desaparece o malandro dos meus dias, encrenqueiro feito o anti-herói de anos idos, mas um coração de menino em Cosme e Damião, um francês descobrindo o Pão de Açúcar, agregador feito o Rio.

E-mail: moaluz@ig.com.br

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