Por adriano.araujo

Rio - Todo o poder pertence ao povo, que o exerce, também, diretamente. Manifestação é forma de democracia direta e auxilia as instituições nas crises de representatividade. Daí a legitimidade das manifestações do domingo passado. Mas pesquisas demonstraram a presença de poucos jovens, marcante em eventos onde o desejo de justiça e felicidade se posta no horizonte e os guia rumo à utopia.

Alguns dos jovens presentes acompanhavam parentes mais velhos, a quem recorriam para responder o que lhes era perguntado. O resultado não poderia ser outro senão ódio, preconceito de classe, ressentimentos, grosserias, ostentações, afetações e esnobismos próprios de provincianos de um país periférico. A maioria era branca, com mais de 30 anos e renda mensal superior a 10 salários mínimos. Uma mulher negra, com roupa branca, carregava uma criança loira, acompanhando um casal que clamava por moralidade vestindo camisa da CBF. Era a babá auxiliando o protesto da ‘Casa Grande’.

A ausência de políticas sociais efetivas recolocou o Brasil na 1ª República. Os lucros dos bancos nunca foram maiores, as políticas sociais se resumem ao assistencialismo, mesmo sem clientelismo, e os serviços públicos foram destroçados. Um médico que trabalha num hospital público do Rio, por 24 horas semanais, recebe R$ 1,4 mil mensais. Proliferam as privatizações — a dos hospitais, por meio das OSs. Saúde, transporte e Educação são uma calamidade, apesar do discurso oficial que aponta — com cabeça nas nuvens e os pés fora do chão — prefeito aliado como o melhor das galáxias. A classe média agoniza e, instigada, esperneia. Cumpre o seu papel de classe em tempo de crise.

Perdedores inconformados querem o 3º turno e pedem intervenção militar. Mas foi o governo federal quem primeiro deu sinais de que problemas políticos e sociais podem ser sanados com as Forças Armadas. Visita ao Complexo da Maré, onde são constantes as violações aos direitos humanos, o demonstra. Isto sem falar na criação, à margem da Constituição, da Força Nacional, tal como o Regente Feijó criara a Guarda Nacional, aparato que deu suporte ao pacto coronelista.

As manifestações de 2015 não se relacionam com as jornadas de 2013. Aquelas tinham pauta, embora difusa, que incluía melhoria no transporte público. Mas jovens foram presos, o movimento social, criminalizado, policiais da Força Nacional atuaram — à margem da lei — como infiltrados, e seus depoimentos se prestam ao liberticídio. O acolhimento das demandas das jornadas de 2013 poderia ter produzido fortes defensores da democracia e não se precisaria pagar a manifestante para apoiar as instituições, ameaçadas pelo golpismo. “Sem o povo não adiantam as fortalezas”, escreveu Maquiavel em 1513, pois em tempo de crise elas se voltam contra o príncipe.

?João Batista Damasceno é doutor em Ciência Política pela UFF e juiz de Direito

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