Milton Cunha: Samba da cucaracha

Quando surgi no carro de som, e Viviane Araújo também apareceu, foi um Deus nos acuda

Por O Dia

Rio - O que faltava no Carnaval que a Ganga Zumba, Ami 7 e Amebras (com participação decisiva de Gustavo Mustoff, da Riotur) produzem para o Governo e a população animadíssima em San Luis, Argentina, era um gran finale a cada noite, depois que a terceira e última escola passasse. Acredito piamente que a plateia que assiste das arquibancadas fica com a maior coceira, o maior comichão de invadir a pista e cair na gandaia, tipo tirar uma onda de desfilante, mesmo.

O que existia nos anos anteriores era um show quando os artistas do ato final vinham num palco com rodas, cuspindo fogo e cantando. Só que esta forma de exibir é a mesma das escolas, então lá ficava a plateia sentadinha vendo mais uma coisa desfilar. Como sempre já está de madrugada nesta parte derradeira, o frio está incomodando sempre. Como esquentar esse povo? Pois este ano, trocaram a direção artística da coisa, que pretendia fazer um show aberto, num palco que estaria localizado num meio de pista, talvez no segundo recuo da bateria, mas antes me chamou para conversar. Foi aí que criei o Apoteosis para eles, imitando nosso nome da Praça da Apoteose. Criei um trio elétrico alargado, com palco para exibição, queijos para bailarinas e mulatas, centro para orquestra. Eles criaram uma música tema deles, com cantores de ópera maravilhosos cantando uma coisa meio rumba, meio maracatu, que eu acabei batizando de Samba da Cucaracha. É animado, é cafona,e é maravilhoso. Quando eu ouvi no Studio, decretei: falta bateria, tem que ter um breque neste calipso, tem que dar uma parada brusca e entrar um ziriguidum. Pois assim fizeram.

Para incentivar que a população, que há seis anos atrás era séria, careta mesmo, aceitasse a ‘invitación’ para cair na gandaia, montamos a seguinte estrutura: eu atravesso a pista antes do começo do desfile das três escolas, e já vou acenando e sorrindo para a multidão. Já brilhoso, me sentindo a Cucaracha. Defronte da tribuna do Governador Poggi e do realizador Antonio Pitanga, me entregam o microfone e me plugam nos telões do Sambódromo. Encho a bola deles, os elejo a capital argentina de la carioquice. Eles contam regressivamente comigo para que os fuegos artificiales iluminem lo ciel, e pelo amor de Deus imaginem eu falando isto a sério, é absolutamente horrível e risível, mas o show tem que continuar. Pois quando surgi no carro de som, e Viviane Araújo empolgada também apareceu, eu e ela chamando a multidão, foi um Deus nos acuda. Quanto mais avançávamos, mais o tapete humano aumentava, eu me pendurei nuns canos possuídos, a multidão embarcou no transe, e a catarse de deu. A cidade foi dormir feliz, pois até as autoridades subiram no carro e viraram um pouco cucarachas. Que não tem pernas para bailar, mas que nós tivemos, quem viveu viu! Podia ser assim na Sapucaí!

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