Por felipe.martins

Rio - É notória a atração entre corruptos e ladrões por automóveis de luxo. Sempre tem um ‘big’ carro no rol dos bens que é incompatível com a renda do meliante. Os imóveis e o recheio das residências não chamam tanto a atenção, só o possante, signo maior de poder e status, ícone do capitalismo, os faz perder a cabeça.

Para viabilizar a compra, entra em cena o ‘laranja’. Aquele que empresta o nome em troca de uns trocados. No fim da história, sempre aparece no noticiário, com cara de bobo, dizendo que “não sabia de nada”. A propósito, dizer que não sabia de nada virou um ‘hit’ no país. Tudo acontece, e ninguém nunca sabe de nada. Afinal, quem sabe?

No filme ‘Assalto ao Trem Pagador’, da decada de 60, baseado em fatos — assim como na nossa história —, aparece a receita de como não chamar a atenção da polícia. Depois do roubo, a quadrilha combina que não pode dar sinal de riqueza por um ano. Não adianta: Grilo Peru, personagem de Reginaldo Farias, se encanta com um carrão, quebra o pacto e faz a compra. Aí começa a autodenúncia que o conduz das ruas à prisão, como os nossos meninos e seus carrões.

Mas é irresistível, parece que o prazer de pilotar o carrão compensa a trágica consequência. Vide o juiz do caso Eike. A lei não resistiu e se entregou aos encantos do Porsche. Colocou o cargo em risco, mas viveu seus minutos de fama. O prefeito de Itaguaí também não resistiu. Mesmo com orçamento acanhado, desfilou numa Ferrari amarela; cor discreta, deve ter pensado. Imaginou passar despercebido pela pequena cidade, só que não foi. Descoberto, alegou que não era dele, e um ‘laranja’ assumiu a propriedade.

A doleira presa com dinheiro na calcinha também foi outra que não se aguentou: comprou um veículo, acabou presa, e o automóvel, leiloado. Nestor Cerveró, no mesmo segmento, se entregou ao prazer de possuir um. Tentou dar um jeitinho via ‘empresa laranja’, mas, no fim das contas, lá estava o carro em nome de sua mulher.

Tudo revela que, entre permanecer rico às custas do roubo e exibir poder, não há limites. O risco de dar pinta e ser descoberto circulando de carrão nesse país de terceiro mundo não os detém, e eles caem em tentação. Uma vez satisfeita, acabam na cadeia com aquelas caras de bobão, tomando banho frio e comendo quentinha. Trocam a polo Ralph Lauren pela camisa listrada dos Irmãos Metralha. Moral da história? Lá se vai o país rimando corrupção com carrão, ladrão e prisão!

Fernando Scarpa é psicanalista

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