Por bferreira

Rio - ‘Não se esqueça da noite no jardim, do medo por que você teve de passar, pobre homem, feito de carne e de sangue, como qualquer outro (...), abandonado diante da morte e do sofrimento’. — Ariano Suassuna.

Mais a idade avança, mais somos assombrados pela única certeza, a morte. Mas por que tanto medo? Medo do desconhecido, do que é e deixará de ser, da solidão, do nada, de ficar pra sempre consigo e exclusivamente consigo. Contudo, homem, cão, peixe e ave pegam esta estrada, e só nós a estranhar. O animal não vê sua cria partir? Entristece e logo retoma o caminho. Mesmo nossos irmãos índios do Xingu têm sua data para celebrar o passamento e nada mais, porque se um esmorece, face a uma perda, é tratado e devolvido à vida na hora certa de plantear, trabalhar, festejar.

Sobra, então, nossa cultura a inculcar a morte, permitindo-a pautar a vida. Entretanto, a naturalidade da morte entre animais e homens de outras culturas leva-nos a imaginar quão lidamos mal com o passamento. Visto que muitos morrem, justamente, por temer a morte ou em virtude duma visita da Ossuda a um benquerer. Ou ensinamos em jardins de infância que tudo é cíclico — início, meio e fim —, alterando o modo de encarar a conclusão da vida, assim, preparando as próximas gerações a lidar com o tema.

Dizer que a jornada foi fácil nunca ouvi; no entanto, ouvi inúmeros afirmarem como o sofrimento roubou-lhes a vivência e, implacavelmente, as noites. Tivesse cota de sofrência a repartir, seguramente alguns seriam mais aquinhoados. Porém, ninguém tem só dias bons. Por conseguinte, resta-nos compaixão em função dos contemplados com a carga máxima. Porque definisse a humanidade, diria: somente a compaixão nos diferencia. Compaixão pela inocência da infância, pela serenidade dos velhos, pelos encurralados na falta de tudo, em razão da abastança de poucos cujo acumular é tomado feito adjetivo.

Pobre homem forjado no sofrimento e na solidão, expulso do aconchego da caixa materna, destinando parte da existência a antecipar a hora do último encaixotamento, pobre homem, o desconhecido a lhe espreitar.

Marcos Mello é sociólogo

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