Milton Cunha: Na cratera do Osorno

Já sou íntimo da Cordilheira. Já a cruzei em passeios caros e já pulei de rodoviária em rodoviária...

Por O Dia

Rio - Os Andes sempre me fascinaram. Aquela gente de cara redonda, tipo cuia, me lembra minha avó índia amazônica, Irene, que fez o portuga Antonio, de Trás-os-Montes, por ela se apaixonar. Reconheço o povo de minha infância em muitos tipos por aqui. Agora já sou íntimo da Cordilheira, já a sobrevoei, quando ela vira pontos nevados lá embaixo; já a atravessei de carro e ônibus, quando ela é uma gigante que sobe aos céus; já naveguei seus lagos verdes, concessão que ela faz em vales para os espelhos d’água que a refletem em belezura duplicada.

E como sou chegado a uma diversidade, já a cruzei em passeios caros e já pulei de rodoviária em rodoviária, vendo o povo e suas comidas, seus ambulantes e também hotéis de luxo. Não quero um só tipo de vida, quero vê-los todos e tirar deles o que de bacana puderem me mostrar. Mas a priori não acho nada melhor que nada. Danço conforme a música, e vou felicíssimo para onde o ritmo me levar. Por isso aqui vai um conselho chileno: todos os pratos, em todos os cardápios, oferecem todas as iguarias “ao pobre”. Você pode comer salmão com roquefort, bem como salmão “ao pobre” (batata frita, ovo frito e arroz). Truta, centolla, lagosta, polvo, camarão, tudo pode ser “ao pobre”. Belo ensinamento de que o simples pode ser uma delícia.

E minha viagem tem sido perpassada pelos “panuelos”, os lencinhos pretos, agora brancos, que as mulheres que ficaram conhecidas como as avós da Plaza de Mayo usavam em suas cabeças durante as manifestações, pedindo explicação sobre o desaparecimento de seus filhos e netos durante a ditadura militar. Pois todo o país o adotou como símbolo de protesto e as centenas de mocinhas que passaram diante de mim em Córdoba me emocionaram com seus semblantes sob o pano triangular branco. E ao lado da grande catedral estenderam inúmeros varais com as fotos dos que nunca foram encontrados, intercalados com os “panuelos” estendidos, com inscrições tipo “todos somos elas”.

E onde mais neste mundão de Deus um lobo marinho de 500 kg me botaria pra correr? Só em Valdívia. Pois vinha eu distraído no início da noite, calçadão da “costaneira”, quando um hurro em dolby stereo surround foi emitido a cinco metros de mim, na escuridão, e me fez recuar. O monstro, que deitado estava no calçamento escuro, levantou meio corpo e me chochou. Quem estava lá caiu na gargalhada de meu susto diante da morte. País de erupções vulcânicas e terremotos seguidos de tsunamis, o Chile criou para si um slogan: grandes dificuldades forjaram um povo tenaz.

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