Jaguar: Os novos velhos

O que há de novo? Os velhinhos. A velhice agora é fashion

Por O Dia

Rio - O que há de novo? Os velhinhos. A velhice agora é fashion. Primeiro foi a edição histórica da ‘Veja’ com os oitentões. Nada a ver com octogenários, entre os quais me incluo. Eles, os oitentões, chegaram lá por merecimento; nós, por tempo de carreira. Na capa, eram uns sete ou oito, mas me lembro do Veríssimo, do Ziraldo e do Zuenir. Acho que o Gullar também estava, e mais um que também é da Academia. Agora o trio oitentão prestigia o Teatro Casa Grande com ‘Barbaridade’, uma comédia musical. Me mandaram um convite.

Na fila para pegar o ingresso, bateu a lembrança de outras comédias musicais — isso foi há mais de 50 anos — com os “tremendos pares de coxas”, como dizia Sérgio Porto. Coxões de Mara Rúbia, Virgínia Lane, Nélia Paula, Renata Fronzi... Eu sempre dava um jeito de ficar na fila do gargarejo. O ‘Pasquim’ entrevistou Mara Rúbia no número 187 de 1973, Millôr e Albino Pinheiro participaram. Fiz a primeira pergunta: “Dona Mara Rúbia, saiba que a senhora era objeto das minhas divagações eróticas de adolescente. Eu só traía a senhora com a Ava Gardner.” Resposta: “Isso me ufana! Mas agora considere-se dispensado.” Perdão, como de costume me perco em divagações, coisa de velho. Mas o fato é que, depois de subir 40 degraus do teatro até a entrada do auditório e descer outros tantos até a fila do gargarejo, logo de cara estranhei a falta da escadaria no palco. Comédia musical sem degraus para a estrela do show descer divando? ( De diva, neologismo usado por uma jovem na televisão. Achei irado — viu como estou focado? —, a palavra merecia estar no ‘Aurélio’). Mas as surpresas não ficaram nisso.

‘Barbaridade’ pode ir para o Guinness — o livro dos recordes — porque é uma comédia musical em que ninguém sabe cantar ou dançar. É fantástico, totalmente inédito. Há diálogos bastante surrealistas, mas, pasmem, não tem enredo. Ou melhor, o enredo é sobre a falta de enredo: os autores, até a hora da estreia, não escreveram uma linha sequer. Alfred Jarry, criador do Teatro do Absurdo, morreria de inveja. O clímax é a produtora do show divando ao fazer uma imitação inenarrável de Ginger Rogers. Na próxima semana, se não esquecer, falarei sobre as vantagens da velhice.

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